Nesta manhã de raro inverno em Vitória, escrevo sob o olhar tristonho e sereno de Fernando Pessoa, com os óculos a faiscar serenamente, cabelo de lado, um olho com óculos um pouco mais alto que o outro, pintado em preto e branco por João Batista Martins, natural de Coimbra.
A matiz alcançada na tela que ele mesmo me presenteou escapa para um cinza quase esverdeado. As pequeninas sobrancelhas de Pessoa, no traço, tendem a unir-se bem logo acima do nariz, desenhado por completo. Por detrás das lentes a pele branca aparece subitamente escapando do branco que cerca todo o seu olhar. Ninguém ou nada escapa da atenção vigil do escritor, que olha ao mesmo tempo para todos, claro. O cordão dos óculos cai para o lado direito do olhar triste. Cada vez que nos olhamos, ele me diz ou mostra algo, ou as duas coisas, ou mais cousas.
Se olho para a frente e para o alto, vejo São Francisco – sem as pombas – olhando fixamente como quem olha para o mundo dispondo. A batina é de um roxo escuro. Tem cabelo, barba curta e bigode. E um olhar firme, quase penetrante.
À minha direita, outro Francisco – nome de um dos filhos de João Ninguém, como se assinava – agora com as pombas em volta. Os outros filhos são Tuca, Maurício, Maria Cláudia e – last but not least - Rachel. Mãos postas, Francisco deve estar rezando. Traz uma auréola amarela e os olhos reveladores. Flores brancas escanteiam o quadro.
Minha casa é abastecida por João. Ele não gostava de vender ou dar qualquer obra sua. De vez em quando estava empregado, imagino, com um bom salário, criando azulejos ou decorações de hotéis de luxo. Não se beneficiava financeiramente de nada disso. Muito pelo contrário. “Vender um quadro é como vender um filho”, dizia.
Adorava rir de piada de português. Certa manhã, caminhando juntos na direção do Cais do Sodré, talvez, perguntei-lhe se não me contaria pelo menos uma piada de brasileiro, para se vingar.
- Mas não existe anedota de brasileiro. É tudo verdade.
Pelo que soube não parava muito tempo em um lugar. De Coimbra, ao Rio da Lapa, a Poços de Caldas, em Minas Gerais, Criciúma, em Santa Catarina, e Vitória, onde morreu aos 79 anos. Estava lá neste momento. Vieram os filhos de Paris, Lisboa, São Paulo e os que moravam em Vitória também estavam no sepultamento. A sua mulher, dona Maria Helena, já havia morrido há tempo. Os filhos sempre ou quase sempre espalhados pelo mundo. Estive presente em muitos encontros intercontinentais dessa família. Parecia que nunca haviam se separado.
Visitei com Rachel, sua filha caçula, um trabalho genial no Hotel Glória, no Rio. Era um restaurante colonial aberto só para grandes eventos. Tiramos fotos de quase todos os seus painéis de azulejos, em azul e branco, pintados à mão em 1960.
Quando a selvageria imobiliária, apoiada por artistas que até Deus duvida, resolveu optar pelo lucro cego, destruiu a marretadas todas – eu disse todas – as artes de João. É um luto naquele que havia sido o Glória. Se fosse vivo, garanto - pelas vezes que o vi pintar -, salvaria os painéis e as outras obras em azulejos e tudo mais que havia criado, usando apenas um cinzel, sem um arranhão sequer.
Começou a chover na Praia do Canto. Em um reflexo levantei-me e fui conferir de novo as obras de Ninguém que me havia oferecido de presente.
Olho para Pessoa. Havia mudado a posição dos óculos, estava mais feliz colocado com carinho na parede. Acho que está rindo, acho tudo lindo e João Ninguém está enfeitando os céus.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, chora.