Foi através do mágico desenho, cartoon, de Ziraldo, que escutei uma definição sobre a função da palavra: disse que é o sexto sentido. Que a palavra leva a qualquer coisa. É verdade, acho. A música, por exemplo, é fundamental, mas não cumpre tantas funções. Ou outra coisa qualquer.
Nada como a palavra, principalmente se carrega humor. O homem é o único animal que ri, não sei de quê, mas ri. A palavra representa significantes e significados que não estão explícitos nunca à raiz da metáfora.
O locutor que vos fala colaborava na edição de um caderno especial semanal que se embalava nas águas do então famoso “O Pasquim”, de imensa importância na arte, no humor e na política, dependendo do leitor, muito importante no tempo da censura.
Dizia proibições, denunciava e fazia profundas críticas, além de fazer rir, é claro. A patota completava-se com os outros fundadores, como Jaguar, Tarso de Castro e Sérgio Cabral, além de Maciel, Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Carlos Leonam, Sérgio Augusto, Fortuna, Ruy Castro, Leila Diniz, e vinha chegando mais...
A obra de Ziraldo atingia, especialmente, o gosto das crianças, independentemente da idade. “A turma do Pererê” foi a primeira história em quadrinhos, a cores, totalmente produzida no Brasil. Entretia assim pela página uma lenda histórica que atingia todos os preconceitos: o herói era um menino de touca, com uma perna só, que andava pra trás, batizado Pererê, e que não envelhecia, possuía dotes mágicos e viajava pela floresta - a Mata do Fundão – fazendo mil travessuras, sendo a principal esconder objetos. Era negro. Quando começou a escrever “O Menino Maluquinho”, Ziraldo morava no Rio. A personagem ganhou altura no mundo.
A revista “Caras” logo teve uma concorrência nos traços de Ziraldo, a “Revista Bundas”. Lembro de ter lido,também, por volta de 1999, a revista “A Palavra”, de arte, fraseados, comportamento, cultura e ideias. Aliás, produzidas fora do tradicional eixo Rio-São Paulo. Publicou, ainda, um livro apenas com páginas em cores, “Flicts”.
Ziraldo foi uma figura militante dos movimentos sociais. Casado e apaixonado por Dona Vilma. Paixão profunda, que só acabou com a morte dela, agorinha mesmo no ano 2000.
Ziraldo fez 90 anos semana passada, sorridente como um Pererê.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, persegue o Pererê.