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Crônica

Que venham preparados os inimigos, o Brasil está na Copa

Em 1958, na Copa da Suécia, aconteceram dois fenômenos: Pelé e Garrincha. Meu vibrante rádio de pilha, marca Philips, estava transmitindo o jogo onde iriam atuar as maravilhosas surpresas

Públicado em 

08 nov 2022 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Em meados de 1958, descia pela Avenida Getúlio Vargas, a maior e mais larga de Manaus, com um imenso radinho portátil colado ao ouvido. Era a transmissão da Copa do Mundo. Até aquele momento, a seleção brasileira nem pensava em levantar a célebre “Jules Rimet”.
A tragédia de 1950, na inauguração do Maracanã, lançara um manto negro sobre os brios nacionais, ainda mais por se tratar da primeira competição mundial no país, quando perdemos para o Uruguai. O Brasil chegou a fazer um a zero, mas depois fez o país chorar com a virada de dois a um para o Uruguai. Passamos a viver a pátria envergonhada.
Na Copa seguinte, na Suíça, em 1954, também ficamos chupando o dedo. A campeã foi a Alemanha depois de arrasar a Hungria.
Assim é que em 1958, na Copa da Suécia, aconteceram dois fenômenos: Pelé e Garrincha. Meu vibrante rádio de pilha, marca Philips (ainda não havia televisão para nós), estava transmitindo o jogo onde iriam atuar as maravilhosas surpresas. O técnico era Vicente Feola, que às vezes dormia durante os treinos e jogos. Os titulares eram: Gilmar, Djalma Santos e Belini; Zito, Orlando e Nilton Santos; Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo. Eram todos craques, mas ganhavam muito mal, completamente incompatível com seus imensos talentos, jogavam por amor. É a arte do talento brasileiro, treinavam por masoquismo.
Naquele tempo, era proibida a venda de jogadores para fora do país, o que dava a oportunidade de todos, durante os campeonatos estaduais e nacionais, se conhecerem.
Passava eu, neste mesmo ano, pelo cinema Polytheama e o coração disparava como um drible do maior ponta-direita do futebol mundial de todos os tempos. Pelo radinho de pilha, a Suécia, trocando passes irretocáveis, fez o primeiro gol. Um minuto depois, Didi enfiou uma bola mágica para Garrincha, que cruzou com a costumeira categoria, e Vavá estava lá de carrinho, empatando a peleja. Aos 32 o vascaíno Vavá virou o jogo. Foi então que ocorreu a rendição do time e da torcida sueca, que passou a aplaudir a seleção canarinho até o fim do jogo, que terminou 5 a 2.
Brasil x Suécia - Copa do Mundo 1958 - Pelé
Pelé no jogo Brasil x Suécia, na Copa do Mundo de 1958 Crédito: FIFA/Divulgação
No segundo tempo, só deu Brasil. Pelé fez o terceiro, depois de aplicar um belíssimo “chapéu” no goleiro. A providência premiou Zagallo, que fez o seu primeiro gol em Copa, com a “canhotinha de ouro”. Pelé ainda usaria sua dourada cabeça para fazer o quinto e cair no choro, consolado por Nilton Santos.
Eu continuava sentado na calçada do Polytheama. As ruas se encheram de glória e revanche. Até hoje, não sei porque, comprei um ingresso e sentei na plateia do cinema, que tinha até camarote. De saquinho de pipoca em punho, assisti pela metade “E o bicho não deu”, estrelado por Ankito e Grande Otelo, da Atlântida. Fui pra casa assoviando “Nega Maluca” , que era cantada por Linda Batista e estava no pico da moda. Parecia carnaval.
É com esse peito cheio de orgulho que proclamo: “Que venham os inimigos”.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, prefere Pelé a Neymar, coisas de cachorro perverso.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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