Lembro-me bem do dia em que o jornalista Claudio Bueno Rocha, o CBR, me apresentou um cão inglês, D. Joseph, batizado assim, letrado e de fino trato, mesmo que gordo e sisudo. Meu amigo havia saído da França e seu rude inverno para passar uns tempos nos ares suaves, quentinhos da Copacabana de outrora, na última rua que corta a praia, a que dá para Ipanema, repleta de vira-latas, onde foi ser amigo do Ziraldo.
Gostava de contar histórias pra mim, ali mesmo no Bar Veloso, depois Garota de Ipanema, chope sobre chope, a bebida que era e ainda é. Um dia, lá pelas tantas – era carnaval, não me lembro qual – falou sobre uma certa carta, carta mesmo, que uma gata recebeu de seu britânico cão contando as farras e fanfarras da Cidade Maravilhosa.
Quando falava de seu cachorro, parecia um tenor de ópera italiana, tal a empolgação que imprimia. Explicou, enquanto olhávamos as meninas passarem em direção à praia, quando ainda não era crime olhar com os olhos, que D. Joseph pertence a uma laia de cães ilustres que os ingleses chamam pug e os franceses carlin.
Segundo CBR, cheio das histórias, a raça do cão, de origem italiana, foi introduzida na França pelo cardeal Mazarino e, assim, o carlin tornou-se o cão favorito da monarquia que campeava no país de Anjou. Notem, queridos leitores, que essas revelações são regadas a tardes inteiras de chope, trazidos pelo Alberico, acompanhados de finos pasteis de vento. Acho que nesse tempo já não tinha bonde. São lembranças descompromissadas e desorganizadas, desculpem leitores não me exijam perfeição.
De repente, CBR conta uma historia encantadora de duplo sentido. Ou triplo, tanto faz. Não estamos aqui nessa esquina para verificações burocráticas ou em busca de uma verdade histórica, que só existe no futuro e no passado. Quando atinge o presente já foi ou vem.
No vale tudo das histórias sem pé nem cabeça, num véu envolto em paixão, uma gata inglesa, Pussy, que sabia escrever, muito melhor que Dorian Gray, por exemplo. Consta que morava em Londres e se correspondia com o carlin D. Joseph, principalmente depois do décimo chope.
CBR tira do bolso do paletó um papel em que prova, à frente de dez testemunhas – sendo que só estávamos ele e eu – a carta que guarda, entre outras, de D. Joseph para a gata inglesa Pussy, que sempre esteve deitada em seus pelos na Inglaterra. E lê em voz alta.
“Pussy amiga: aproveito a ocasião em que meu amo conversa com um certo Jaguar do Pasquim, aqui neste último lugar de sabedoria e de solidão, para falar desses biquínis recheados de lindas mulheres que me fazem rosnar e a eles assoviar.
A primeira impressão que me deu o mar cheirando a areia e este boteco foi de uma insólita variedade, proveniente, talvez, de uma espécie de democracia que habita esse povo brasileiro. Tomo como exemplo a fisionomia dos cães. Aqui eles não são divididos rigidamente por raças, cada um tem a sua cara.
Os cães, como os homens e as mulheres por aqui são tão possuidores de identidade – são eles que fazem seus tipos – e estão sempre lindamente a se mostrar. Há uma festa – o carnaval – que transforma qualquer um no que quiser. E cantam, como cantam. Criam verdadeiras constituições nas letras dos sambas de enredo. Outro povo não conseguiria imitar.
Quando realizam eleições e criam leis, ninguém obedece ou segue nem uma coisa nem outra. Fazem muito barulho, rosnam, gritam, mas fica tudo como dantes. Inclusive. Uma característica dessa gente gostosa e fogosa é a relação confusa com a política e a realidade.
Todo mundo sabe a solução para o país de Ipanema, cara Pussy, mas fica um esperando pelo outro e assim vai. A criatividade emerge mesmo, quando se tenta dar sentido às letrinhas das siglas dos partidos políticos. Os significados das letrinhas não fazem o menor sentido, uma graça.
Sei não, Pussy, mas no dia em que esse lindo povo decidir realmente e não for carnaval, vai ser sanatório geral.”
Dorian Gray, meu cão vira-lata, faz cara de importante.