No início de 2005, a questão social das identidades sexuais e as discussões sobre isso eram matéria de difícil abordagem, e conceitos e preconceitos não constituíam temas de fácil abordagem.
Foi nessa época que a gentileza de Cariê Lindenberg convidou-me a participar de um livro que estava editando sobre o assunto. Fiz o que pude e participei da publicação do “GLS, Entenda as entendidas”.
Convidou também outras pessoas, cada qual no seu pedaço. Assim foi que a advogada, Sonia Rabelo, o psicólogo Ítalo Campos, a escritora Lúcia De Biase Bidart, o psicólogo Carlos Boechat, as psicólogas Beth Aragão e Leila Machado e eu compusemos o que se chamou grupo de discussão, uma parte técnica, por assim dizer.
Cariê elaborou as entrevistas e outras sessões fundamentais e a competente organização geral.
Neste momento, em que voz falo, trato então de reler o livro e com a devida licença discutir comigo mesmo e agora com vocês, meus leitores, o âmago da questão, como eu entendo, se é que entendo do assunto agora.
Na presente data, entendo menos do que entendia, até porque acho que esse tema não deveria ser definido assim sem mais nem menos. Ou a discussão deixa de ser livre para ser legalizada dentro das mirabolantes capacidades de nossos atuais legisladores.
Na época escrevi: “Caminhando por este cipoal de conceitos, preconceitos, de todas as vertentes e territórios ao longo destes muitos anos de prática clínica, e, retirando cá minhas próprias ideias a respeito, acabei por chegar a uma encruzilhada de pensamentos nem todos conclusivos, muitas vezes contraditórios, a respeito do que seria a construção de um comportamento homossexual ou outro qualquer, já que se trata de uma escolha objetal que foge ao policiamento da psiquiatria clássica, digamos, oficial".
“Convenhamos, porém, que todos temos o desejo e a necessidade de definir os infinitos rumos e direções. A ciência, neste caso, é quase tão importante, quanto impotente e inútil. Bem, a presente proposta pede uma opinião”. Vou dar, então.
O primeiro pensamento que me assalta à mente é uma estatística pessoal. Jamais alguém me procurou direta ou indiretamente, como terapeuta, meu ofício até hoje, para traduzir em queixa o fato de ter sua férrea identidade, por assim dizer, em dúvida quanto a formação do gênero ou distorções a respeito. Os diferentes comportamentos sexuais, quando aparecem na história pessoal, não são como são as dores ou outras queixas quaisquer.
A teoria cartesiana proposta por Sigmund Freud para explicar através do enigma do Complexo de Édipo, do mecanismo das identificações, e outras lógicas, parece para os cientistas com que discuto fora da área específica demasiado ingênua e franca demais. Eu não acho.
Minha senhora, venha a saber que em ciência, de modo geral, quando não se pode testar e provar um conceito, cria-se uma regra autoritária a respeito. A ciência não precisa ser verdadeira, mas consistente e imóvel.
Só para citar um exemplo. Não se deveria, em minha opinião, admitir a existência de uma única modalidade de homossexualidade.
Continuo pensando do mesmo jeito de existir a cada momento, isto é, cada coisa tem sua própria mobilidade, a maioria das vezes jamais desvendada.
Teóricos do mundo, uni-vos, então.
Talvez seja possível e viável passear pelo cipoal dos conceitos a esse respeito. A escolha da via acaba sendo a da pluralidade. Foge tanto aos fundamentos biológicos, com a genética, ou à fé, pertencente ao sagrado junto com a procriação e os mandamentos da religião.
Pronto, cansei-os. Pior do que isso eu não sei fazer.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, anda farejando tudo que encontra por perto.