Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Crônica

Não há música do passado ou do futuro

Uma música, quando é bela para alguém, qualquer um, não tem essa marcação inexorável que arbitrariamente inventa o dia, o mês, o ano, e assim vai, pra frente e pra trás

Públicado em 

06 set 2022 às 00:30
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Ah, o amor, quando é demais ao findar leva a paz
Na bossa nova todo mundo era muito feliz ou ia ser, principalmente em Ipanema e Copacabana, no Rio (na Jovem Guarda todos eram muito felizes). As músicas e letras das escolas de samba cantam a saga da vida e a arte da morte, do ritmo. E pronto.
Metáforas sobre metáforas escondem o “quando”. Não existe o passado, o presente e o futuro para músicas. Uma música, quando é bela para alguém, qualquer um, não tem essa marcação inexorável que arbitrariamente inventa o dia, o mês, o ano, e assim vai, pra frente e pra trás.
As pedras preciosas como as composições de Cartola, Tom Jobim, Ataulfo Alves, Caetano, Gil, Chico, Belchior, Milton, Noel, Edu, Paulinho, Adoniran, Chico Lessa também marcam vagamente sobre os limites do tempo, todas no mesmo tempo.
Assim é que todas as músicas, para mim, podem ser colocadas em qualquer tempo inventado. Não há música do passado ou do futuro. Passam em geral, imperceptivelmente pelo presente. E ficam vagando, mudando de época sem morrer.
De nada adiantaram os sofridos estudos dos seculares filósofos. O meu preferido é Santo Agostinho: humano, artista e mágico. Eu li “Confissões”, para mim a fusão do homem e o santo. Mas continua em vigor, por exemplo, o indeterminado, não aconteceu nada, o famoso “morreu de repente”, por exemplo.
Ousou conceituar essa coisa, o homem e o tempo que escorre pelos nossos dedos e se alia à morte.
Para ele, tudo é presente. O passado é impelido pelo futuro e o futuro está precedido de um passado, e todo o passado e futuro são criados e emanam daquele que é presente sempre. Simples não, queridos leitores?
Calma que vem mais.
“Diga-se também que há três tempos: pretérito, presente e futuro, como ordinária e abusivamente se usa”.
Diz ele que não se importa, nem se opõe, nem critica esse jeito de viver, a temporalidade, contanto que se entenda o que se diz e não se julgue que aquilo que é futuro já possua existência, ou que o passado subsista em qualquer nível. “Poucas são as coisas que exprimimos com terminologia exata. Falamos muitas vezes sem exatidão, mas muitas vezes entende-se o que se quer dizer”. Fácil, não, digo eu?
A questão do tempo era fundamental para o santo. Confessa que tendo levado uma vida mundana, quando no auge da alegria, sentiu-se chamado para servir a Deus. Entretanto sentia-se – de tempos em tempos – atraído pelo prazer. Conta em “Confissões” que pediu a Deus que o livrasse dos desejos mundanos. Tendo sido atendido imediatamente, pensa no tempo, e reza: “Senhor me dá mais tempo de prazer”.
Voltando à fé agostiniana. “Se pudéssemos conceber um espaço de tempo que não seja susceptível de ser dividido em minúsculas partes de momentos, só a este poderíamos chamar de tempo presente”.
Simples, não?
Mas esse tempo passa tão incontrolavelmente do futuro ao passado, que não tem nenhuma duração. Se tivesse, dividiria-se em passado e futuro. É por isso que o tempo presente não tem extensão alguma. Fácil, não?
Concordamos que a música é o único elemento terreno que não exige marcação de tempo, de época, essas coisas. Ontem mesmo, em uma tertúlia musical, ouvi lindas pérolas de todas as épocas cantadas e encantadas pelo gênio de Norival Perini, e outros, em uma varanda sobre o mar da Praia da Costa.
O limite do tempo não apareceu. As coisas e os eventos carregam secretamente as marcações, os limites.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, está se relacionando com uma certa Alexa, um robô.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Conexões femininas
Conexões Femininas: mães e filhas discutem vida em família e carreira
Imagem de destaque
Horóscopo do dia: previsão para os 12 signos em 02/04/2026
Imagem de destaque
Até quando os motoristas vão ficar cara a cara com o perigo nesta rodovia?

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados