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Crônica

As princesas da notícia e Dona Rosa do Espírito Santo

Estava andando na rua quando dei de cara com um folheto de propaganda de uma certa cartomante que se apresentava: “Dona Rosa: o passado e o futuro”. Taí, achei a matéria da Mirinha

Públicado em 

30 ago 2022 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

História
Dona Rosa, a cartomante Crédito: Arquivo/Paulo Bonates
São belas, brilhantes e conscientes as meninas da Globo News.
Conheci uma delas, Miriam Azevedo Leitão, Mirinha, filha do então reverendo de Caratinga. Ainda jovem, mas consciente e corajosa, presa e torturada covardemente pelos vilões de 1964, que tendo invadido o próprio país – que é de todos – dedicando-se a usar força bruta assassina contra qualquer coisa, ainda assim prosseguiu lutando.
Não era uma luta leal, era um imenso exercício de covardia que manchou para sempre a imagem das nossas realmente gloriosas forças armadas, aquela dos pracinhas que lutaram na Itália contra os nazistas. E venceram.
Bem no meio dessa melódia, Mirinha foi chamada para repórter da Revista Agora de Vitória. Eu era um dos seus editores. A revista era cheia de graça, dirigida por Cláudio Bueno Rocha. O empreendimento saiu de uma das brilhantes loucuras do gênio de Edgard dos Anjos.
Agorinha mesmo, Miriam lançou um livro para crianças. Uma beleza.
Volto para as meninas da Globo News.
Encarregam-se basicamente de fazer discussões inteligentes sobre o passo a passo do povo e do governo.
Não perco uma análise política delas. Foi então que lembrei da Revista Agora. Era a edição de capa “Os últimos Guaranis”, contando a saga do povo indígena no Espírito Santo.
Estava andando na rua quando dei de cara com um folheto de propaganda de uma certa cartomante que se apresentava: “Dona Rosa: o passado e o futuro”. Taí, achei a matéria da Mirinha. Bem, dizia lá o folheto: “Agora, residindo no bairro Goiabeiras III à Rua 28, casa 6, a conhecida espiritualista Dona Rosa”. Em seguida apresentava suas habilidades mágicas: fazia de um tudo.
Mirinha foi e escreveu e eu publiquei. Se Dona Rosa era superdotada, não sei, mas me ajudou e à Miriam Azevedo a fechar três páginas. Com todo respeito e admiração, vou me permitir reescrever algumas frases dela, a repórter.
“Entrei e uma menina ficou repetindo baixinho: vamos chegar pessoal. Senti-me a primeira cliente do mês. Até aquela hora não sabia qual história de amor perdido que eu iria contar, embora já tivesse um roteiro: eu seria uma noiva frustrada”.
Criou uma personagem.
“(...) Dona Rosa é gorda e com jeito de quem realmente pode resolver problemas. Ficou parada cinco minutos e falou com voz misteriosa: Sou eu mesma minha filha”.
- Tu mesma queres falar com Dona?
- Eu mesma.
Nas paredes brancas, colares de vários estilos. O de Iemanjá era em cores.
- A senhora sabe do passado, presente e futuro de todo mundo?
- Eu leio nas cartas.
Mirinha me disse que partiu o insólito baralho.
- Tu nasceu sob a influência da arte. Tu és braba, autoritária, mandona. Mas só da boca pra fora, minha filha. Lá dentro tu é boa de fazer dó. Pensa em muita gente, mais do que em ti mesma, E quando tu ama, fica calminha, some a braveza toda.
Mirinha contou uma história de amor que misturava realidade e criatividade onde pairava uma dúvida de paixão, por suposto.
Ao final, Dona Rosa foi conciliatória: “Teu noivo te ama muito. Fica com ele e terás isto (mostrou uma carta com o desenho de uma mulher sorrindo e colhendo flores. Quem não quer tranquilidade? Tá me entendendo minha filha?)”.
Já na porta, Dona Rosa, retrucou baixinho: se quiser um trabalho a gente faz. Tu queres?
“Fiquei de resolver. Saí, e os vizinhos me olhavam curiosos”.
Eu ouvi dizer que Dona Rosa está desempregada. Candidatos, aproveitem.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, aparece com uma dama de ouro.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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