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Crônica

A arte da acupuntura dos contadores de histórias

Foi num reclame curtinho que passava antes dos filmes que eu tive a notícia de uma ciência chinesa que praticava a técnica de estimular o corpo em terapia com agulhas imensas, para nossa excitação e calma, que curava tudo

Públicado em 

29 set 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Pessoa fazendo acupuntura
Pessoa fazendo acupuntura, técnica milenar da medicina tradicional chinesa Crédito: Shutterstock
Minha primeira experiência teórico prática em acupuntura teve a participação da colega que sentava na carteira da frente. Daquelas que abre a tampa para colocar a livraria que o colégio mandava. Ela não falava com ninguém e, como se não fosse o bastante, denunciava ao diretor do ginásio toda “cola” produzida com carinho na turma.
Mostramos a Édila que a cola é sagrada como a corrupção, prega na memória e é a única coisa que a gente não esquece para o resto da vida. Mas ela era irredutível na missão maior que sustentava, de alcaguetar.
Quando o padre chegava aos 100 anos, um século, portanto, ele subiria aos céus e sentaria à mão direita do Pai. Minha senhora, mas ainda tinha coisa boa nisso. Quando morria, eram sete dias sem aula e a gente podia ficar em casa. Afinal, tínhamos que rezar. Bem, o apelido do padre Severo era “Próximo Feriado”.
Foi num desses reclames curtinhos que passava antes do filme que eu tive a notícia de uma ciência chinesa que praticava a técnica de estimular o corpo em terapia com agulhas imensas, para nossa excitação e calma, que curava tudo.
Desse dia em diante concentrei-me na colega Édila e na ideia de iniciar seu “tratamento”. Quem sabe não ficaria boazinha, e poderíamos repartir os conhecimentos, escondidos dos severos olhos do Severo, sem culpa.
A segunda parte do plano era elaborar a estratégia. Lembrando Santo Agostinho, sempre rogado nas malandragens, deu-se a sagrada ideia. O assento da carteira era coberto com uma almofada plana. Encastoamos uma agulha de tal maneira que a pontinha ficava para cima, tudo isso antes do bedel arrumar a sala.
Enfim, selecionamentos a ação, a agulha do mal, de modo que quando a querida colega sentasse, o plano teria dado certo. Senhoras e senhores, nunca aconteceu um silêncio e tanta atenção naquela aula – que, aliás, era de latim, ainda por cima - até que se escutasse o grito agudo e desesperado da apaixonante Édila.
Todos da brigada da vingança olharam inocentemente, ao mesmo tempo, para o teto. A pobre criatura atingida foi socorrida. A hipocrisia da turma dos vingadores não chegava ao ponto de perguntar se havia doído.
A eclosão do plano ocorreu no exato dia em que o presidente Getúlio Vargas morreu. Não que uma coisa tivesse a ver com a outra. Bem, também não teve aula naquele dia. Padre Severo conteve suas suspeitas repetindo que Deus está sempre por detrás repondo.
Séculos e séculos depois, a agulha volta à cena. ronda meus desejos. E tem nome: Acupuntura. E me lembrou “A vingança da Édila”.
A ideia secular sempre atraiu minha atenção. Meu grande amigo, Edson Pinho, o Sapinho, praticava com destreza em mim, e cheguei a submeter-me a poucas experiências com Regina e Ediron. Você nem sente nada de ruim. Claro está desmaiado (Brincadeirinha).
O curso que vou fazer de Acupuntura, a partir do próximo mês, tem tudo a ver com psicossomática. No meu modesto entender. Será que algo a de conseguir unir meu corpo e minha mente, benza a Deus.
Mas a minha paranoia não abandona a Édila, desconfio que ela tenha a ver com a denúncia contra os jornalistas do episódio covarde deflagrado no jornal Charlie Hebdo.
Faz mal não, ela deve ter dedurado alguém. E no carnaval vai sair de diabo, só falta o rabo, só falta o rabo.
Dorian Gray, meu vira-lata, não se pronunciou.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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