Com a pandemia do novo coronavírus (Covid-19), centenas de países adotaram medidas de mitigação para desacelerar o crescimento de casos confirmados e óbitos nas curvas epidemiológicas. A suspensão das aulas presenciais foi uma das estratégias implementadas nesse sentido. Tal ação demonstrou ser essencial para reduzir o ritmo de contágio no período de intenso aumento dos registros da Covid-19.
Superada essa fase crítica, a maioria das nações procederam a retomada das aulas presenciais facultativas seguindo uma série de protocolos operacionais, a saber: aferição de temperatura na entrada da escola; obrigatoriedade do uso de máscaras; diminuição do número de alunos por sala de aula; afastamento físico entre as pessoas; ampla disponibilidade de álcool a 70%; e comunicação visual reforçando a relevância da higienização das mãos e das etiquetas respiratórias.
Em um debate honesto e equilibrado, livre de influências ideológicas e políticas polarizadas, a discussão sobre a retomada ou não das aulas presenciais facultativas se encontra superada. A partir do momento que uma determinada unidade geográfica alcança uma redução consistente nas curvas epidemiológicas da Covid-19, a discussão deve ser conduzida no sentido de construir o melhor caminho para que a retomada ocorra com segurança para a comunidade escolar.
Dessa forma, em um primeiro momento é importante aprender com as experiências internacionais. Para isso, a análise aqui desenvolvida se baseia em estudos do campo da saúde e educação, bem como considera bases de dados, como o portal de informações geoespacializadas sobre a Covid-19 da Universidade Johns Hopkins.
A Dinamarca e Alemanha seguiram protocolos de segurança em saúde pública e se destacam no grupo de países que promoveram um retorno às aulas presenciais sem intercorrências significativas. O primeiro país, que possui cerca de 5,7 milhões de habitantes, alcançou o pico de óbitos pelo novo coronavírus no dia 4 de abril, com 22 mortes. Desde então, o citado indicador vem evidenciando redução.
A Dinamarca iniciou a abertura das escolas por etapas na metade de abril, a partir do segundo ciclo do ensino fundamental e 1ª série do ensino médio. Com 83 milhões de pessoas residentes, a Alemanha alcançou o topo da curva de óbitos pela Covid-19 no dia 15 de abril, com 510 mortes. Desde essa data é observado um gradual e contínuo decréscimo na referida curva. Esse país, por sua vez, procedeu a retomada das aulas presenciais no início de maio, começando pelo ensino médio.
Insta salientar que nem mesmo nações como a Dinamarca e Alemanha estão livres de surtos locais de casos confirmados em escolas. Nessas ocasiões, os protocolos de vigilância em saúde devem ser acionados para mitigar e controlar os efeitos na comunidade escolar.
Por outro lado, Israel se encontra no grupo de países que registraram consideráveis alterações nas curvas epidemiológicas. Essa nação conta com 9,1 milhões de habitantes e seu primeiro pico de óbitos pelo novo coronavírus ocorreu entre 13 e 18 de abril, com 13 mortes. A retomada das aulas presenciais em Israel não foi escalonada e aconteceu na metade de maio sem o estabelecimento das principais medidas de segurança em saúde.
Por exemplo, o uso de máscaras não se tornou obrigatório nas unidades escolares. A interrupção das aulas nas escolas foi implementada no início de julho. Atualmente, os israelenses sofrem com uma segunda onda de óbitos pela Covid-19, em 24 de setembro foram computadas 53 mortes. Essa segunda onda de óbitos não ocorreu exclusivamente em decorrência da reabertura das escolas. Contudo, a forma que a retomada das aulas presenciais foi procedida em Israel provavelmente contribuiu para esse fenômeno.
Em síntese, o mundo nos ensina que a retomada das aulas presenciais deve satisfazer minimamente as seguintes condições: a) ocorrer de forma facultativa e por etapas, quando as curvas epidemiológicas da Covid-19 estejam estabilizadas ou em redução; b) seguir os protocolos de segurança em saúde pública aqui citados; c) contar com a comunicação clara e transparente dos governos e gestores escolares com o objetivo de conscientizar sobre os cuidados necessários e riscos, evitando gerar pânico e alarde na sociedade. Assim, estaremos avançando no processo de convivência com a pandemia de forma consistente.