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Tem certeza que você defende a democracia?

Cartas lidas nesta quinta-feira (11) marcam momento histórico. Este, no entanto, somente vai ter força se for além da semântica

Vitória
Publicado em 12/08/2022 às 02h10
Leitura da carta pela democracia no Teatro Universitário da Ufes
Leitura da carta pela democracia no Teatro Universitário da Ufes. Crédito: Fernando Madeira

A derrocada da democracia tem ocorrido em diversos países, mas se mantém semanticamente. Ninguém diz "isto é uma ditadura" ou "eu sou um autocrata". Nesse sentido, nenhuma novidade. Até a Coreia do Norte é, oficialmente, a República Popular Democrática da Coreia.

O modus operandi, entretanto, mudou. A democracia é corroída por dentro, por pessoas eleitas democraticamente que, uma vez no poder, enfraquecem as instituições que garantem o direito ao voto, à ampla defesa em processos judiciais, à liberdade de expressão, à liberdade de imprensa e à independência do Ministério Público.

Tudo isso em meio à muita desinformação. "Guerra é Paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força", já dizia o lema do "Partido" em 1984, de George Orwel.

No Brasil de 2022, sugerir não respeitar o resultado das eleições, apontar que há risco de fraude no processo eleitoral – somente quando o candidato teme ser derrotado, é claro – virou "defesa do voto transparente, auditável".

Nomear um procurador-geral da República que, em vez de servir ao interesse público, age como um subordinado do presidente da República já não causa escândalo.

Um novelo de crimes de responsabilidade imputados ao mesmo chefe do Executivo guardados na gaveta do presidente da Câmara dos Deputados, tampouco.

É na normalização do absurdo que a autocracia floresce.

O presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), reagiu com escárnio à "Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito", elaborada pela Universidade de São Paulo e que conta com mais de um milhão de assinaturas, de pessoas das mais diversas áreas, inclusive esta colunista.

O próprio Bolsonaro escreveu uma "carta" para mostrar que também é um democrata:

"- CARTA DE MANIFESTO EM FAVOR DA DEMOCRACIA

"Por meio desta, manifesto que sou a favor da democracia."

Assinado: Jair Messias Bolsonaro, Presidente da República Federativa do Brasil."

Foi um tuíte, publicado no último dia 28.

Dizer-se democrata é muito fácil, basta tuitar essas singelas palavras. Sê-lo, de fato, são outros quinhentos.

Se você defende que o Legislativo fiscalize apenas a gestão do político que você não gosta; que a imprensa aponte erros também somente daqueles contra os quais você torce; que o Ministério Público denuncie apenas quem você considera adversários políticos; que as eleições tenham validade apenas quando o seu candidato ganhe, algo de errado não está certo.

Não vou aqui praticar "doisladismo" e tampouco ignorarque outros políticos também atentaram contra a democracia. 

É fato que o ex-presidente Lula (PT), quando diz que quer regular os meios de comunicação, quando não se compromete a escolher alguém da lista tríplice para chefiar a Procuradoria-Geral da República ou quando faz acordos com políticos inescrupulosos também flerta com o enfraquecimento das instituições.

Mas Bolsonaro elevou o jogo da autocracia a outro nível. Não é à toa que a carta em favor da democracia é vista por ele e seus apoiadores como uma afronta.

O nome do presidente nem é citado, mas o texto diz, por exemplo, o seguinte:

"Ataques infundados e desacompanhados de provas questionam a lisura do processo eleitoral e o estado democrático de direito tão duramente conquistado pela sociedade brasileira. São intoleráveis as ameaças aos demais poderes e setores da sociedade civil e a incitação à violência e à ruptura da ordem constitucional".

Quem faz essas coisas se sente atingido. É o velho "vestiu a carapuça".

A carta foi lida, nesta quinta-feira (11), em diversas cidades do país, inclusive em Vitória, em frente ao teatro da Ufes.

O ato principal, na USP, reuniu empresários, sindicalistas, políticos, artistas, juristas e entidades da sociedade civil. Lotou o centro de São Paulo.

A ideia foi fazer um ato suprapartidário. Gritos de "Fora, Bolsonaro" foram entoados pelo público.

O mesmo ocorreu na Ufes.

Por aqui, que foi onde esta colunista esteve, chamou a atenção que a maior parte, ou mesmo a totalidade, dos participantes da manifestação pró-democracia era integrante de grupos de esquerda, partidos, sindicatos, candidatos. 

Bandeiras vermelhas e adesivos com o nome de Lula deram o tom do evento. Nenhum problema com a presença desses símbolos, é da democracia, mas há um porém.

Leitura da carta pela democracia no Teatro Universitário da Ufes
Leitura da carta pela democracia no Teatro Universitário da Ufes. Crédito: Fernando Madeira

Se chegamos ao ponto de temer haver um golpe, até com o uso das Forças Armadas, em outubro, é porque a defesa das instituições e da própria democracia, quando não é tímida, fica restrita a um nicho e, assim, submetida a críticas de viés político-eleitoral.

Por sorte, até mesmo a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), notória agregadora de empresários bolsonaristas, divulgou uma carta – “Em Defesa da Democracia e da Justiça" – que também foi lida na USP. 

Somente quando setores que até então se sentiam confortáveis, imaginando que nada têm a perder com o estado de coisas que se avizinha, perceber que dar passos em direção ao passado vai comprometer o futuro é que a sanha antidemocrática vai ser freada. 

Mas isso tem que ser feito antes que seja tarde demais.

A centro-direita, não contaminada pelo extremismo, os socialdemocratas e mesmo os que não se enquadram em campos ideológicos têm que se movimentar.    

Só para ficar claro: Ignorância não é força.

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