Assembleia do ES aluga 31 carros por R$ 3,9 milhões para deputados
Por 30 meses
Assembleia do ES aluga 31 carros por R$ 3,9 milhões para deputados
Um novo contrato entrou em vigor. O Corolla que Lucas Polese (PL) dirigia quando se recusou a fazer o bafômetro, no sábado (6), foi disponibilizado pela Casa a ele um dia antes. Apenas um parlamentar não usa veículo oficial
Assembleia Legislativa do Espírito Santo, em VitóriaCrédito: Carlos Alberto Silva
Não foi a atual administração da Assembleia Legislativa do Espírito Santo que instituiu o fornecimento de veículos oficiais para os deputados. Somente para exemplificar, um ato de 2014 é o que estabelece as regras para uso dos carros.
O Legislativo vai pagar R$ 3.907.748,40 pelo aluguel de 31 carros num período de 30 meses, ou seja, dois anos e meio. A vencedora da licitação foi a empresa Localiza Veículos Especiais S.A.
O leitor, ou leitora, pode estar se questionando: "Ué, não são 30 deputados? Por que 31 carros?".
É que o presidente da Assembleia, cargo ocupado por Marcelo Santos (Podemos) desde 1º de fevereiro de 2023, tem direito a dois veículos: um para o gabinete dele e outro para o da presidência.
Nem todos os parlamentares usam o carro oficial. Nesta legislatura, apenas Sérgio Meneguelli (Republicanos) abriu mão.
Isso, contudo, não reduz o valor do contrato e nem o número de carros oferecidos. O que não é utilizado fica parado na garagem da sede do Legislativo, pegando poeira. Se o parlamentar mudar de ideia, está lá.
O contrato 11/2023 estabelece as características dos veículos a serem fornecidos pela empresa. Eis algumas delas:
Veículo Sedan tipo executivo, 0 km (zero quilômetro) na data de entrega
Quatro portas
Mínimo de dois airbags frontais (motorista e passageiro)
Ar-condicionado
Direção Hidráulica ou Elétrico-Hidráulica
Freio a disco nas quatro rodas, instalado na fábrica com ABS/EBD
Vidros com acionamento elétrico nas quatro portas
Travas com acionamento elétrico nas quatro portas
Pintura metálica cor preta ou grafite escuro
Alarme com acionamento na chave ou chaveiro
Película de proteção solar máxima (permitida por lei)
Os 31 carros têm que ser iguais. Os Corollas disponibilizados na sexta-feira (5) atendem a esses requisitos, mas são provisórios. A Localiza tem até 120 dias para entregar os veículos definitivos, que podem ser de outro modelo.
É a empresa que deve fazer a manutenção, preventiva ou corretiva, dos carros. O contrato não inclui, contudo, o combustível. Isso fica por conta da cota parlamentar fornecida pela Assembleia aos deputados.
O termo também não prevê o fornecimento do serviço de motorista. A quilometragem é livre.
Ato administrativo que dispõe sobre o uso de carros oficiais por deputados da Assembleia Legislativa do Espírito SantoCrédito: Reprodução
O contrato 12/2018, em vigor até então, foi firmado pelo Legislativo estadual com a Salute Locação e Empreendimentos LTDA. Começou a valer em 5 de maio de 2018.
O aluguel de 31 carros, por 24 meses, custou R$ 1.530.564,24. Três termos aditivos foram firmados, o que, certamente, elevou essa cifra. O contrato terminou, efetivamente, na última quinta-feira (4).
O COMBUSTÍVEL
Cada um dos deputados estaduais tem direito a R$ 3 mil de cota parlamentar por mês. A verba deve ser usada com despesas referentes a passagens aéreas, material de expediente, telefone móvel, postagens, cópias reprográficas, assinaturas de periódicos e outras necessárias ao mandato.
Entre esses gastos, está o combustível para abastecer o carro alugado pela Assembleia que fica à disposição do gabinete. A limpeza do veículo também deve ser bancada pela cota.
De fevereiro (quando começou a atual legislatura) até abril de 2023, Lucas Polese, por exemplo, solicitou R$ 1.000,00 da cota para "combustível e lavagem de veículo", mas gastou menos.
De acordo com o Portal da Transparência, ele consumiu, em três meses, 75,29 litros, no valor de R$ 395,53. E não empregou nem um real em limpeza.
Não, gente, com esses quase R$ 4 milhões do atual contrato de aluguel de carros oficiais não seria possível acabar com a fome no Espírito Santo, dobrar o salário dos professores... Nada muito mirabolante.
Essas cifras, contudo, saem do erário. Dinheiro não cai do céu. É preciso aplicar os recursos públicos com legalidade e eficiência. E transparência.
Difícil crer que um parlamentar que ganha salário de R$ 31,2 mil brutos por mês precisa de ajuda para se alimentar. Logo, não vai ser por causa disso que vai desempenhar melhor as funções de legislar e fiscalizar. É um gasto sem eficiência, do ponto de vista do interesse público.
Quanto ao carro oficial, avalio que tem utilidade para o exercício do mandato. Por exemplo: deputados, via de regra, têm que cumprir agendas no interior do Espírito Santo.
Quem viaja a trabalho, normalmente, tem as despesas pagas pela empresa que o contratou. É justo. Se o parlamentar vai a um evento representando a Assembleia, mesmo em Vitória, é razoável que seja transportado em um carro pago pela Casa.
Mas não é todo dia que os parlamentares percorrem rodovias e estradas vicinais. Por que, então, ter um veículo sempre à disposição?
Por que o deslocamento do deputado de casa até a Assembleia tem que ser pago com dinheiro público? Nós, trabalhadores da iniciativa privada, temos direito a um cartão do Transcol.
"Ah, mas os procuradores de Justiça do Ministério Público do Espírito Santo recebem salário de R$ 37,5 mil, auxílio-alimentação de R$ 3,4 mil e ainda têm carro oficial à disposição", posso ouvir alguns dizerem.
É verdade. Também é preciso repensar a eficiência desses gastos. Mas isso não impede o questionamento à Assembleia.
Para além do dinheiro gasto, é preciso separar bem o que é público do que é privado.
O caso de Lucas Polese é um exemplo. O deputado alega que estava em "missão oficial" por volta de 1h30 da madrugada de sábado com o Toyota Corolla alugado pelo Poder Legislativo. Não disse exatamente o que estava fazendo e tampouco explicou o motivo do "odor etílico".
Pode ser que estivesse tudo dentro da legalidade? Improvável, mas vá lá. Ainda que o parlamentar não seja punido, o problema é agir como se isso não importasse, como se não houvesse contas a prestar. Como se o carro fosse dele.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.