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Sem transparência

Auxílio de R$ 1,8 mil para deputados do ES é jabuti bem alimentado

Parlamentares da Assembleia Legislativa já recebem R$ 31,2 mil de salário. Para além da necessidade do benefício, que é concedido também a membros bem remunerados de outros Poderes, há a forma como o auxílio-alimentação foi aprovado pelos deputados. Faltou transparência

Publicado em 25 de Abril de 2023 às 02:10

Públicado em 

25 abr 2023 às 02:10
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

Plenário da Assembleia Legislativa do Espírito Santo no dia 19 de abril de 2023
Plenário da Assembleia Legislativa do Espírito Santo no dia 19 de abril de 2023 Crédito: Ellen Campanharo/Ales
É difícil reunir argumentos favoráveis ao pagamento de auxílio-alimentação de R$ 1.829,79 mensais a deputados estaduais que recebem salário de R$ 31.238,19. Até porque eles também têm carro oficial à disposição, com gasolina paga com dinheiro público (o veículo e o combustível devem ser usados apenas para compromissos de trabalho), direito a nomear até 19 servidores comissionados, cota parlamentar para manter o gabinete em funcionamento e diárias que podem chegar a até US$ 400, quando em viagem oficial.
Tão difícil que os parlamentares da Assembleia Legislativa do Espírito Santo preferiram nem argumentar. E, não contentes, ainda tentaram "fazer a egípcia".
Eles aprovaram, na última quarta-feira (19), à unanimidade, um projeto de resolução que estendeu o benefício pago aos servidores da Casa aos próprios deputados. A norma foi publicada no Diário do Legislativo nesta segunda-feira (24).
A diferença é que, ao contrário dos funcionários do Legislativo, que contam com o tíquete-alimentação automaticamente, os membros do Poder vão ter que fazer um requerimento para passar a receber.
A votação que concedeu essa possibilidade aos parlamentares estaduais ocorreu de forma nada transparente e durou cerca de oito minutos. Ninguém discutiu os prós e os contras da proposta.
Pior: quem assistiu à sessão não percebeu o que estava acontecendo. As palavras "auxílio-alimentação", "tíquete" ou "benefício", por exemplo, nem foram mencionadas.
Em votação estava o Projeto de Resolução 11/2023, de autoria da Mesa Diretora, que "dispõe sobre a criação da Comissão Permanente de Proteção e Bem-Estar dos Animais, alteração nas atribuições da Comissão de Proteção ao Meio Ambiente e atribuição do Presidente referente às sessões da Assembleia Legislativa realizadas às quartas-feiras".
Ao relatar a matéria nas comissões reunidas da Casa, o deputado estadual Tyago Hoffmann (PSB), vice-líder do governo Renato Casagrande (PSB), propôs, oralmente, duas emendas ao texto.
Uma foi para suprimir um artigo do Regimento Interno da Assembleia e outra para acrescentar ao projeto que "fica estendido aos Deputados Estaduais do Espírito Santo, por meio de requerimento, o direito previsto no art. 1º da Resolução nº 1.805, de 23 de outubro de 1995".
Qual direito? Nem uma palavra a respeito. Nenhum colega de Hoffmann perguntou, nem por curiosidade. Muitos deles já sabiam do que se tratava. E acharam melhor deixar quieto.
O artigo suprimido foi o 276-A, que dava à Comissão de Defesa da Cidadania e dos Direitos Humanos da Assembleia o poder de analisar conclusivamente a concessão de  título de cidadão. O tema "Cidadania" já havia sido transferido desse colegiado à Comissão de Constituição e Justiça. Assim, foi feito um ajuste ao regimento.
À esquerda e à direita, de João Coser (PT) e Iriny Lopes (PT) a Capitão Assumção (PL), passando pelo jovem Lucas Polese (PL), os votos dos deputados nas comissões reunidas foram favoráveis ao projeto de resolução, com as emendas e tudo. Ou seja, eles deram aval ao auxílio-alimentação de R$ 1,8 mil.
A votação em plenário foi simbólica. Logo, não há o registro nominal. O presidente da Assembleia, Marcelo Santos (Podemos), colocou a matéria em discussão. Um segundo depois, anunciou: "Não havendo quem queira discutir, em votação. Os deputados que concordam permaneçam como se encontram. Os contrários se manifestem. Aprovado".
Ninguém se manifestou. A aprovação foi unânime.

R$ 658,4 mil

Vai ser o impacto anual nos cofres da Assembleia se todos os 30 deputados estaduais pedirem para receber o auxílio-alimentação
Assim que chegou a vez de o Projeto de Resolução 11/2023 ser analisado, Marcelo Santos avisou apenas o seguinte: "Estamos separando da Comissão de Meio Ambiente o bem-estar dos animais, aonde teremos uma nova comissão".
Ele não mencionou, mas, originalmente, o texto também tratava de dar uma competência para o próprio presidente da Casa. As sessões plenárias realizadas às quartas-feiras são híbridas, os deputados podem optar por ir à Assembleia ou participar virtualmente.
Isso se mantém, mas, agora, o presidente vai poder definir se a sessão tem que ser totalmente presencial ou totalmente virtual, "de acordo com o necessário", e ainda se elas serão deliberativas ou não.
Quando Hoffmann incluiu as emendas sobre a Comissão de Direitos Humanos e o auxílio-alimentação, leu apenas o texto formal das alterações propostas, sem explicar do que se tratava. 
O BEM-ESTAR DO JABUTI
Suprimir um artigo do Regimento Interno para redistribuir as funções da antiga Comissão de Defesa da Cidadania e dos Direitos Humanos não tem a ver com criar a Comissão Permanente de Proteção e Bem-Estar dos Animais; conceder auxílio-alimentação aos deputados, tampouco (a não ser que lembremos que os seres humanos também são animais e os deputados são seres humanos...).
Daí poder-se inferir que as emendas configuram "jabutis", que é como se chamam inserções num projeto que não trata originalmente do assunto em questão. 
Mas, desde o início, a proposta já tratava de coisas distintas, a criação da comissão do bem-estar animal e o formato das sessões da Assembleia às quartas-feiras.
Tecnicamente, portanto, seria possível defender que o auxílio-alimentação dos parlamentares não foi um jabuti no projeto que objetivava o bem-estar dos animais (não humanos). E sim uma adição em projeto de resolução que tratava de modificações diversas no Regimento Interno da Casa.
Mas, na prática, foi sim. Um jabuti camuflado e bem alimentado.
PROMOTORES, JUÍZES E CONSELHEIROS TAMBÉM RECEBEM
"Ah, mas promotores e juízes também recebem auxílio-alimentação. Isso a Globo não mostra".
Olha, A Gazeta mostra, sim. A Globo também. E vou registrar aqui, de novo:
Promotores e procuradores de Justiça do Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) recebem auxílio-alimentação de R$ 3.392,49 por mês. Esse valor é novo, fruto de um reajuste recente.
Juízes e desembargadores recebem R$ 2.374,74 de auxílio-alimentação mensais do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES).
Conselheiros e conselheiros substitutos do Tribunal de Contas do Espírito Santo (TCES) têm auxílio-alimentação de R$ 2.240,32. Procuradores do Ministério Público de Contas também.
E, se na Assembleia Legislativa o benefício dos deputados vai ser igual ao pago aos servidores da Casa, isso não ocorre nessas outras instituições.
Mas a questão não é só receber ou não receber. Ou o valor despendido. É a falta de transparência, é a tentativa de aprovar o auxílio para os parlamentares sem ninguém perceber.
Como se os deputados estivessem tratando de algo particular e não de dinheiro público. Como se não coubesse aos eleitores saber o que é votado na Casa e o posicionamento dos que elegeram.
"NÃO TINHA CONHECIMENTO DA EMENDA"
Como já mencionado, a votação do projeto de resolução que, entre outras coisas, instituiu o auxílio-alimentação para os deputados estaduais foi simbólica, não nominal.
Mas, como ninguém se manifestou contrariamente, todos os parlamentares presentes no plenário votaram automaticamente a favor. Exceto o presidente da Casa, que não vota.
Camila Valadão (PSOL) estava lá, contudo, disse que não sabia o teor da emenda, já que essa alteração foi proposta oralmente e sem maiores delongas.
"Votei favorável ao projeto que criou a comissão permanente (do bem-estar animal), mas não tinha conhecimento da emenda que incluía o tíquete, já que ela não havia sido protocolada no sistema da Assembleia. A leitura em plenário não especificou seu objetivo", escreveu a deputada, no Twitter, nesta segunda.
"Foi aprovado sem o registro do nosso voto contrário um projeto que nada tinha a ver com o assunto original em discussão. Um verdadeiro absurdo a proposição e a tramitação", publicou Camila.
Tyago Hoffmann não concedeu entrevista sobre o assunto à coluna. Mas, certamente, ele não agiu como um lobo solitário que ludibriou a maioria dos colegas.
Embora os deputados não tenham conversado sobre o assunto diante das câmeras que transmitiam a sessão ao vivo, seria ingenuidade crer que não debateram isso internamente.
E nada seria feito sem o conhecimento de Marcelo Santos, afinal, é ele que administra o Orçamento da Casa.
 O QUE DIZ A ASSEMBLEIA
A coluna enviou à Assembleia Legislativa nesta segunda uma série de questões:
  • Qual vai ser o impacto anual do pagamento de auxílio-alimentação aos deputados estaduais?
  • Sei que vai ser pago mediante requerimento, mas a Assembleia teria dinheiro para pagar a todos, caso todos requisitem?
  • A partir de quando os deputados podem pedir para contar com o benefício?
  • E a partir de quando a Assembleia começa a pagar?
  • O Portal da Transparência da Assembleia vai mostrar quais deputados recebem o auxílio-alimentação?
Por meio da assessoria de imprensa, a Casa respondeu o seguinte:
A Assembleia Legislativa do Estado do Espírito Santo (Ales) aprovou, na última quarta-feira, o Projeto de Resolução 11/2023, de autoria da Mesa Diretora, que recebeu emendas orais de parlamentares durante reunião das comissões reunidas analisando o texto que, dentre outros assuntos regimentais, estendeu aos parlamentares o pagamento do auxílio-alimentação, conforme acontece nos demais Poderes. 
A matéria foi aprovada à unanimidade dos presentes na reunião das Comissões e em plenário, seguindo todo o rito legal. Para receber o auxílio, que é facultativo, o parlamentar deverá registrar requerimento junto à Secretaria de Gestão de Pessoas e, assim, receberá um cartão com os valores a partir da data da solicitação.
A coluna apurou que os requerimentos podem ser feitos desde esta segunda. Quem pedir, passa a contar imediatamente com o benefício. 
Aguardemos se vai haver transparência, ao menos, quanto a quem recebe ou não recebe o auxílio.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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