Dona Maria Rita: a gargalhada é sua marcaCrédito: Wilson Roberto
Mora em Barra de São Francisco, tem 113 anos de idade e pretende viver “mais 50 anos”. Dona Maria Rita Pereira, considerada a mulher mais velha do Espírito Santo e, possivelmente, a terceira mais idosa do Brasil, mora há 25 anos na cidade do Noroeste do Estado, na casa da única filha que lhe restou. Ela tem mais de 100 descendentes em cinco gerações.
Apesar da idade avançada, é bom não duvidar da determinação dessa mineira de Mutum (MG), que venceu um câncer de mama aos 103 anos, quando extraiu um dos seios. Dona Maria Rita ainda ajuda na cozinha, escuta e enxerga mal, mas nada que a impeça de se deslocar sozinha pela casa e no quintal. Surpreende pela memória e pela disposição não só de viver, mas de viver com alegria.
Canta inúmeras modinhas aprendidas nas lavouras de café de sua terra, gosta de dançar um forró e, segundo a família, se deixar, ainda arranja um namorado. Ela teve três maridos e cinco filhos, todos com o primeiro companheiro. O último marido, Raimundo José Pereira, que, coincidentemente, tinha o mesmo nome do primeiro, morreu aos 70 anos, quando dona Maria Rita já tinha 98.
“Se a gente deixasse, ela teria arrumado outro”, entrega a neta Rosineia, 48 anos, filha de Zenilda Rita de Jesus, 71 anos, conhecida como Santa, e única filha viva de dona Maria Rita e com quem mora. “Se levar no forró, ela ainda dança”, completa dona Santa. O pai de Santa, o primeiro Raimundo José, morreu com 45 anos e o segundo marido, Albertino, morreu com 76.
O jornalista e pesquisador José Caldas conta que quando sentou-se para conversar com dona Maria Rita, ela, muito à vontade, entoou a primeira cantiga das lavouras de café: “Seu pai não quer / que eu sento perto docê / fura o zóio dele / que gente cega não vê”. E arremata com uma gostosa gargalhada.
Aliás, gargalhar é uma das marcas de dona Maria Rita, que cultiva, desde os 10 anos de idade, o hábito de fumar cachimbo (não espalhem, gente). Aprendeu com a própria mãe. “Ela gritava lá do meio mato e eu tinha que acender o cachimbo pra ela. Foi assim que aprendi”, lembra a idosa.
Outro hábito, bem próprio do mineiro, ela também adquiriu com a mãe. “Ela bebia cachaça e falava que eu tinha que beber. Então, eu bebia”, gargalha de novo.
Dona Santa conta que a mãe dorme cedo e acorda tarde. Entre sete e oito horas da noite, já está deitada. Não sem antes rezar de mãos postas, o que faz também todos os dias quando levanta, lá pelas nove horas da manhã. Se deixar, segundo a filha, ela dorme o dia inteiro, mas, depois que se levanta, ninguém mais segura.
"Eu gosto é de carne, muita carne de porco e de galinha, junto com abóbora madura, batata e inhame chinês"
Dona Maria Rita Pereira - Contando sobre sua alimentação
Sua primeira refeição é uma caneca de leite queimado acompanhada de biscoitos. Ao meio-dia, almoça e come bem. Repete a mesma refeição às cinco da tarde e, antes de dormir, toma a segunda caneca de leite quente do dia. Remédio, ela só toma um: um comprimido de 25mg para controle de pressão, tomado apenas uma vez por semana.
Casou-se, pelos cálculos da família, com 25 anos, baseados na idade da filha mais velha, Maria Pereira da Silva, que, se viva fosse, estaria com 86 anos. Depois dessa, vieram Ozias, que morreu aos 7 anos de idade, segundo a família, “envenenado com mistura de comidas”; José Raimundo, que teria 84 anos; Zenilda, viva, com 71 anos; e Zenildo, que teria 69 anos. Este ficou 30 anos sumido para Rondônia, até o reencontro pouco antes de morrer.
No Natal passado, a família mais próxima fez um encontro na casa de Zenilda. Foi preciso comprar a metade de um boi para dar conta. Agora, se a pandemia da Covid-19 deixar, eles estão preparando um grande encontro para o próximo Natal. Com tanta gente querendo ir à festa, Zenilda já refez os cálculos: “Agora, não vai poder ser meio boi. Vai ter que ser um boi e meio”.
A idade de dona Maria Rita não é só tradição oral. Está tudo documentado: ela tem Carteira de Identidade, Carteira de Trabalho (nunca assinada), CPF e Título de Eleitor, o último emitido em 1995 em São João de Manteninha (MG), onde morou na casa da filha, antes de mudar-se para Barra de São Francisco. Nunca estudou: “Meu pai só me ensinou a trabalhar, graças a Deus. E a vida inteira trabalhei na roça e na cozinha”, conta ela sem demonstrar qualquer desgosto com isso.
Dona Maria Rita comprova que tem 113 anos de idadeCrédito: Wilson Roberto
Diante da inevitável pergunta sobre o segredo de chegar aos 113 anos com tamanha disposição e alegria, dona Maria Rita é direta: “É viver com vontade de viver e com prazer”. E parece que a fórmula vem de longe. Segundo a família, a mãe dela, Maria Rita Olímpia de Jesus, morreu com 125 anos na casa da filha mais nova, Laurita, hoje com 75 anos.
Dona Maria Rita é uma das personagens da pesquisa do jornalista José Caldas da Costa, que, depois de escrever o premiado livro sobre a Guerrilha do Caparaó, agora se dedica a localizar e entrevistar pessoas centenárias do Espírito Santo. “Encontrei um novo propósito, que é o de descobrir o segredo dessas pessoas que passam dos 100 anos com lucidez e alegria de viver. Afinal, se depender de mim, vou aos 153”, brinca Caldas, que estima em mais de 570 o número de pessoas centenárias no Estado, com base em projeções e estatísticas demográficas do IBGE.
Caldas conta que seu objetivo é entrevistar pelo menos 100 dessas pessoas e apresentar um pouco de suas histórias ao público. Para isso, conta com a colaboração de fontes espalhadas no Estado inteiro. Quem descobriu dona Rita e contou sobre ela para Caldas foi o jornalista Weber Andrade, que também nasceu em Mutum e mora há quase 30 anos em Barra de São Francisco.
A pessoa mais idosa do Espírito Santo até pouco tempo atrás – falecida há seis meses, segundo o historiador Eliezer Nardoto – era uma mateense: Esberta Evangelista dos Santos, a dona Caçula, que tinha 115 anos completados no dia 18 de janeiro.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.