Estão no chão quase 80 anos de história. A derrubada de um sobrado bem no centro de
Barra de São Francisco nesta terça-feira (9) provocou nostalgia nos moradores mais antigos. Enquanto as máquinas trabalhavam pesado para derrubar o prédio, as pessoas olhavam e recordavam-se os muitos “causos” havidos no lugar. Mais do que o Rosane Hotel, o que estava sendo derrubado era o marco, principalmente, das histórias de Ivo Coimbra, seu último proprietário antes de virar hotel no final dos anos 1960.
“O Ivo foi um Pedro Malasartes da nossa região. O maior mentiroso de todos os que já existiram por lá”, recorda-se Edivaldo Machado Lima, 70 anos, filho de um cearense que morava em
Cachoeiro e que, em 1943, migrou com a família para as terras ao Norte do Rio Doce e lá criou a família. “Sou o mais novo”, conta Edivaldo.
Seu pai, Joaquim Alves de Lima, aproveitou bem as novas terras, foi vereador, presidente da Câmara e juiz de paz. O filho mais velho, Levi Teixeira Lima, também foi político e hoje denomina o trecho capixaba da rodovia que liga a cidade a Mantena (MG).
As histórias de Ivo Coimbra estão eternizadas por Edivaldo na página “
Museu Virtual de Barra de São Francisco”, no Facebook. “As dele e tantas outras. Eu não invento, eu só retoco e o povo sai contando. É assim que sobrevive o folclore das cidades”, filosofa Edivaldo.
Mas e o Rosane Hotel, que foi demolido? Não tem mais importância do que o Grande Hotel e o Hotel Avenida, que eram considerados os melhores de Barra de São Francisco, e nem do Quitandinha, que também já foi demolido e levou consigo a história do nascimento da cidade. “O Quitandinha, que na verdade era uma pensão, era um sobrado todo de madeira, em frente a onde hoje é o Banco do Brasil. Era lá que se hospedavam as autoridades que visitavam nossa cidade”, recorda.
Antes de ser um lugar de hospedagem, o prédio do Rosane Hotel era armazém de café, na sua parte inferior, e a padaria do Ivo Coimbra, construída no terreno que ele ganhou do Capitão Djalma Borges, o homem que botava ordem na zona do contestado.
“Era o hotel mais popular, que recebia os viajantes e as pessoas solteiras que vinham à cidade”, conta o
prefeito Enivaldo dos Anjos (PSD). “O Grande Hotel e o Avenida é que eram os maiores.”
Mas não venham dizer a mesma coisa para a família de José Soares dos Santos, já falecido, e que foi quem criou o hotel. “Dá vontade até de chorar. Casei ali, meu pai faleceu ali”, contou, emocionada, Aparecida Soares Almeida, mulher do comerciante José Maria Almeida, ao jornalista Webber Andrade, que registrava os detalhes da demolição do antigo prédio.
Aparecida passou a manhã inteira ao lado do irmão Guanair Soares, o Guará, acompanhando os trabalhos das máquinas. Parecia que, a cada parede derrubada, ruía também um pouco da própria história da família.
Hoje morando em Guriri, balneário de
São Mateus, o administrador Clinger Soares, filho mais novo do fundador do hotel, disse que fez sua monografia de conclusão do curso de Administração sobre a história do Rosane Hotel, mas admite que tem poucas lembranças.
“Sei que minha família veio de São José do Mantimento (MG) e, chegando aqui, meu pai, José Soares, e meu tio, Wander Silvino Soares, compraram a casa e construíram mais para os fundos, criando o hotel”, conta Clinger. Anos depois, Wander Silvino quis voltar para Minas Gerais e vendeu sua parte para o irmão. “A partir daí o imóvel passou a pertencer somente à nossa família e, quando meu pai morreu, ficou para os herdeiros.”
Adquirido por R$ 2,1 milhões por um empresário da família Fortuna, que tem negócios de granito na região, o imóvel pertenceu por décadas à família de José Soares dos Santos, mas agora faz parte apenas da história e das páginas de Edivaldo Lima no Facebook. No local será construído um edifício.
O Rosane Hotel é um dos cinco pequenos prédios construídos nos primeiros anos de existência de Barra de São Francisco e que resistem ao tempo bem no início da Avenida Jones dos Santos Neves. É o primeiro a desaparecer, levando consigo quase 80 anos de história.