Um dos personagens mais emblemáticos da Primeira República, o coronel da Guarda Nacional Henrique da Silva Coutinho passou por um verdadeiro processo de apagamento histórico. As provas deste alijamento secular estão no livro “O Homem Apagado da História”, obra de 360 páginas que será lançada em 17 de novembro pelo escritor Romulo Felippe, membro da Academia Espírito-santense de Letras (AEL).
A biografia do Coronel Coutinho (que presidiu a Assembleia Legislativa, foi senador da República e governou o Estado por duas vezes, a última no mandato 1904-1908) revela uma das disputas políticas mais explosivas da Primeira República capixaba e reexamina decisões que ajudaram a transformar Vitória em centro portuário e ferroviário.
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Os ingredientes são inúmeros: sua amizade de 14 anos com o antecessor Muniz Freire acabou num telefone cortado a tesoura dentro do palácio; um impeachment aprovado na Assembleia em 1905 e dois "congressos" rivais em 1906, cada lado se proclamando vencedor; e, entre outros fatos, um plano de assassinato contra o governador, noticiado pela imprensa em 1906.
“O ápice da briga com Muniz se deu em 1907, quando Coutinho vendeu a Estrada de Ferro Sul à Leopoldina Railway por 4 mil contos, uma herança munizista que culminara em dívida externa para o Espírito Santo”, conta o autor.
A oposição gritou, mas, graças à ousadia do Coronel Coutinho, em 1910 os trilhos finalmente ligaram Vitória à capital federal, revela o biógrafo. No governo de Coutinho também foram inaugurados a Estrada de Ferro Vitória-Minas e o Porto de Vitória, obras que reforçaram a posição da Capital como eixo de circulação de café, minério e outras riquezas. Ele assumiu, porém, um Estado endividado e com poucas condições de investimento, herança de uma crise econômica e de projetos que não chegaram ao fim.
No Senado, enfrentou Rui Barbosa em embates calorosos e chegou a desafiar colegas para duelos à moda antiga. Entre outros, foi coautor da emenda de 1902 sobre as areias monazíticas de Guarapari, que à época era tema nacional. Nos últimos anos de vida, Coutinho viveu exilado no Rio, debilitado e em cadeira de rodas.
A certidão de óbito registra “embolia cerebral” como causa da morte, em 13 de junho de 1915. Morreu pobre e probo, mas cercado pelo reconhecimento de sua probidade já que seu funeral recebeu honras de chefe de Estado.
“Uma prova de seu apagamento histórico é que praticamente inexistem, nos arquivos locais, exemplares de jornais capixabas deste período de seu passamento. Precisei buscar em jornais cariocas detalhes de sua morte”, realça o acadêmico. De maneira que a biografia acompanha também o processo pelo qual antigos adversários e rearranjos políticos contribuíram para o apagamento de seu nome.
Para reconstituir essa trajetória, Romulo Felippe pesquisou milhares de documentos, jornais, registros e imagens, além de ouvir descendentes da família. O resultado apresenta um personagem controverso e contundente, pouco conhecido até então, cuja atuação ajuda a compreender a formação política e econômica do Espírito Santo na Primeira República. É a saga do líder que sucedeu Muniz Freire e elegeu Jerônimo Monteiro como sucessor.
“Acredito que, quando a história apaga um homem, cabe à literatura lhe devolver a voz”, sentencia o biógrafo de nomes como Theodorico Ferraço e Euclério Sampaio, lembrando que, graças às ações munizistas, o velho coronel não batizou com seu nome municípios nem ganhou bustos de bronze em praça pública, embora tenha virado nome de escolas e de ruas. O homem era descendente direto do donatário Vasco Fernandes Coutinho.
O lançamento da biografia “O Homem Apagado da História” (R$ 25, edição de luxo) vai ocorrer no dia 17 de novembro, na Biblioteca Municipal Adelpho Poli Monjardim, na Cidade Alta, em Vitória. A renda das vendas será integralmente revertida ao Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e à Academia Espírito-santense de Letras, duas das mais antigas entidades culturais do Estado.
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