Abrindo a série Meu Universo Particular em 2026, esta entrevista convida o leitor a mergulhar no pensamento e no processo criativo de Gustavo Greco — designer à frente da Greco Design e um dos nomes mais consistentes do design brasileiro contemporâneo. O universo de Greco é atravessado por escuta, propósito e responsabilidade cultural.
Seu trabalho vai além da forma: parte da investigação profunda dos problemas e da recusa a modismos para criar linguagens visuais que façam sentido para quem vive a experiência. O design, para ele, é conexão — entre pessoas, territórios, memórias e futuros possíveis.
Com uma trajetória marcada por projetos de grande impacto simbólico e social, Gustavo construiu uma obra que dialoga com a cultura brasileira em sua complexidade, respeitando repertórios, identidades e histórias.
Iniciativas como a parceria com o Fa.vela e projetos como o Memorial Brumadinho revelam um designer que entende o design como escuta, pertencimento e transformação.
Premiado nos principais palcos internacionais e profundamente comprometido com a difusão do design como linguagem cultural, Gustavo Greco nos inspira por sua capacidade rara de unir rigor, sensibilidade e consciência.
Nesta conversa, ele compartilha as origens desse olhar e nos convida a compreender o design não apenas como ferramenta estética, mas como um gesto capaz de tornar o mundo mais legível, mais humano e mais possível.
Confira abaixo a entrevista com Gustavo Greco:
Isabela Castello – Você poderia falar um pouco da sua infância e do seu contato com as artes, com a estética? Já havia alguma inclinação para a área artística/design? Havia algum vislumbre de que a carreira artística/design seria um caminho?
Gustavo Greco – Eu acredito que toda criança seja criativa. Todo ser humano é criativo. Talvez eu tenha mantido isso bem vivo em mim. Mas, quando criança, eu queria ser apresentador de um programa sobre vida selvagem na África. Risos.
Conte um pouco sobre sua formação e início da carreira.
Aos 18 anos, é difícil escolher o curso que definirá sua profissão,
concorda? Comecei estudando Direito na Faculdade Milton Campos,
mas me interessei pelo design no curso de Publicidade e Propaganda da
PUC Minas, que cursava simultaneamente. Embora eu tivesse acabado
de passar no exame da OAB, fiz uma pós-graduação em Gestão
Estratégica de Marketing e, pouco depois, abri meu primeiro escritório de
design. Uma ironia do destino foi pensar, àquela época, que eu seria um
advogado criminalista...
Ao longo do curso de Publicidade, comecei a fazer alguns freelas de
criação com colegas e nunca advoguei. Trabalhei com meu pai em seu
posto de gasolina durante o período da faculdade e vi de perto e desde
muito cedo o que significava ter o próprio negócio. Minha veia
empreendedora pulsou mais forte e, junto de Nina Maia e Mariana
Hardy, abrimos, em 2000, um escritório de design chamado Vitamina D.
Em 2005 fundei a Greco.
Qual o artista ou designer que mais admira e que tenha sido uma influência na sua carreira ou na escolha por essa carreira?
Vou pular essa, tá? Risos. Eu sempre tenho muita dificuldade em
restringir e elencar minhas influências.
Você poderia citar um momento ou trabalho marcante da sua trajetória? Algo de que você tem boas memórias ou de que mais se orgulha de ter feito?
Em 2016, estabelecemos uma parceria com o Fa.vela, a primeira
aceleradora de base favelada do Brasil, que atua no desenvolvimento do
ecossistema de empreendedorismo, tecnologia e inovação de
comunidades de baixa renda, por meio de programas de aceleração de
negócios e projetos com foco em impacto socioambiental e econômico.
De lá para cá, criamos mais de 130 marcas para os empreendedores que
possuem seus negócios nas favelas onde vivem. Para que isso
acontecesse, foi preciso criar outra comunidade: a de outros designers
da cidade, além do nosso time, que se envolvessem com a causa e
emprestassem seu talento em prol da criação das identidades.
E não é possível fazer um bom projeto de design sem entender o
problema de perto. Subimos o morro e ouvimos essas 100 histórias.
Escutamos, então, o sonho da loja de frutas da Isabela, da fábrica de
sabão do Tiago, da escola de inglês do André e de mais dezenas de
pessoas que queriam empreender na comunidade. Um ponto se fez
comum em todas as falas: essas pessoas não queriam sair da favela, e
sim fazer o seu negócio ali e ver esse “ali” mudar.
Nesse projeto, todo o processo de criação das marcas foi colaborativo.
Os empreendedores da favela não foram considerados meros clientes,
mas coautores de sua marca. É importante destacar, aqui, que o
repertório simbólico e imagético da favela tem muitas peculiaridades.
Orientamos os designers, portanto, para que os projetos mantivessem
essa essência da favela, principalmente na materialização dos pontos de
contato das marcas.
Não era nossa intenção a estetização com parâmetros visuais distantes e
estranhos aos donos das marcas. Era fundamental que essas pessoas
se sentissem parte daquilo que nascia. No que diz respeito aos pontos
de contato, por exemplo, foram mantidos materiais simples e, muitas
vezes, utilizadas gambiarras características da cultura brasileira nas
soluções de design. O design, aqui, trata muito mais de materialização
de sonhos e pertencimento do que de acabamentos elaborados e
repetidamente finalizados. É o design em sua essência de transformar o
mundo à sua volta.
Projeto da Greco Design em parceria com a aceleradora Fa.vela
Fale um pouco sobre seu processo criativo.
Todos os nossos projetos apresentam uma investigação do problema para encontrar a solução. A maior inspiração para o projeto, a meu ver, é sempre o problema de design. Ao investigá-lo, encontraremos todas as respostas: forma, paleta cromática, tipografia, acabamentos. Nosso principal desafio é renunciar aos estilos, ao que está na moda, para criar histórias realmente relevantes. Afinal, somos criadores de linguagens para nossos clientes e, caso insistamos em olhar para o lado, entregaremos para eles uma língua afastada do que realmente deve ser dito. Outro ponto em comum é a nossa busca constante por soluções que aliem excelência, ousadia e impacto para os usuários. Não gostamos de projetos que sejam apenas corretos, facilmente aprováveis. Sentir aquele frio na barriga antes de apresentar o nosso trabalho é sinal de que fomos fundo na busca de uma ideia que seja realmente reflexo da identidade do cliente.
Qual é seu trabalho atual ou mais recente?
Terminamos um projeto muito especial: a identidade e a sinalização do Memorial Brumadinho. Em 25 de janeiro de 2019, em Brumadinho, Minas Gerais, uma barragem de rejeitos contendo resíduos de minério de ferro se rompeu. Isso resultou em uma onda devastadora de lama que destruiu tudo em seu caminho e matou 272 pessoas. As famílias das vítimas formaram uma associação chamada AVABRUM, cujo objetivo é lutar pelos direitos daqueles que sofreram a perda de seus entes queridos. A Vale S.A., responsável pelo ocorrido, foi obrigada a pagar uma série de compensações pelo crime. Uma delas foi a criação de um Memorial em homenagem às vítimas, projetado pelo escritório Gustavo Penna Arquiteto e Associados. Ficamos responsáveis pela criação da identidade e da sinalização do Memorial Brumadinho. Integrado ao bosque original onde o Memorial foi construído, foram plantados 272 ipês-amarelos – árvores que florescem quando a estação seca se intensifica, lembrando-nos de que, apesar de tudo, a vida segue. Assim, a representação icônica da flor de ipê pareceu ser a melhor escolha para a identidade do Memorial. A flor de ipê iluminada, recortada em metal, se apresenta ao longo de um caminho de 230 metros em direção ao ponto da ruptura. Uma flor para cada vítima – elas se acendem como uma espécie de procissão testemunhando o acontecimento de maneira indelével. Os equipamentos de sinalização mimetizam as formas, vistas e ângulos do projeto arquitetônico. Produzidas em aço corten, as placas nos mostram o caminho de maneira silenciosa, no mesmo tom das paredes de concreto aparente, misturado à terra vermelha e a pedaços de metal retirados dos escombros, vestígios do rompimento. Uma tipografia exclusiva foi criada pela Blackletra, inspirada nos tipos talhados em pedra, frequentemente encontrados em espaços memoriais. A tipografia “Brumadinho” tem versões serifada, sem serifa e ALMA. Arquitetura, Design e Tipografia em um projeto que confronta o indivíduo e o coloca diante do registro inegável da realidade.
O que é design para você?
Design é poder de conexão, de criar e materializar discursos e, mesmo quando silencioso, de fazer o nosso dia a dia melhor.
Identidade e sinalização do Memorial Brumadinho
Além do seu trabalho, como é seu contato com a arte atualmente e ao longo da sua vida, nas mais diferentes vertentes?
Eu sou fascinado pelo universo da arte. Gosto de estudá-lo, contemplá-lo. Tenho arte em casa, no escritório e, recentemente, tivemos a oportunidade de fazer o projeto gráfico do livro de uma das principais artistas contemporâneas brasileiras, a Sonia Gomes.
Qual é o papel e a relevância da arte para a sociedade?
Vou citar o artista e professor da Bauhaus, Paul Klee: “A arte não reproduz o visível; ela torna visível.”
Projeto gráfico do livro de Sonia Gomes foi desenvolvido pelo Greco Design
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