Conheça algumas obras presentes na exposição
Show das Matas: a música que reencanta o mundo
Conheci o DJ Mam após sua apresentação na Semana Criativa de Tiradentes. Foi ali que ele me falou sobre o Show das Matas, um projeto potente que nasce da interseção entre cultura, ancestralidade e experimentação sonora.
Seu trabalho orquestra uma ponte viva entre a música indígena e a sonoridade eletrônica contemporânea. Não se trata de fusão estética apenas — é manifesto, escuta, reverência. É colocar no centro as vozes que mantêm acesa a alma das matas e dos rios.
A potência desse movimento atravessa fronteiras. Após a participação na WOMEX, na Finlândia, o Show das Matas seguiu para apresentações na França, descolonizando a programação de alguns dos principais museus etnográficos do continente, num momento simbólico, às vésperas da COP-30, quando o mundo volta os olhos para o futuro do clima.
No palco, ele é acompanhado pelo flautista e saxofonista Rodrigo Sha e pelas vozes de artistas tupi e guarani, com quem reinterpreta canções ancestrais e clássicos da música popular brasileira inspirados em culturas indígenas. Logo se juntam a eles Djuena e Weena Tikuna, figuras emblemáticas do povo Tikuna, cujas canções combinam herança ancestral e engajamento político. O evento contou com as presenças de representantes de comunidades indígenas do Espírito Santo: Rodrigo Karai Mirim, da Aldeia Indígena Piraqueçu, em Caieiras Velha, Aracruz; e Jocelino Tupinikim, da Aldeia de Caieiras Velha.
O resultado é uma jornada musical pelo Brasil, da Amazônia à Mata Atlântica, entre territórios e línguas, onde memória e criação contemporânea se entrelaçam. As apresentações realizadas em Lyon e Paris, entre os dias 6 e 9 de novembro, marcaram o encerramento do Ano do Brasil na França — celebração dos 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países, com eventos que ocorreram de abril a dezembro em mais de 50 cidades francesas
Estamos falando de arte que não se contenta em entreter. É arte que reorienta o olhar, desloca a narrativa e reocupa espaços que, historicamente, silenciaram ou exotizaram as culturas originárias.
É arte que reencanta — e que insiste em lembrar que o futuro também é ancestral.