A exposição inédita "Ecotopia", do médico e artista visual ítalo-brasileiro Gui Mazzoni, traz obras feitas por meio da sonofotografia. O método, criado pelo próprio artista, transforma o ultrassom, tradicionalmente usado no diagnóstico médico, em uma ferramenta capaz de gerar imagens do próprio corpo a partir do som.
Nesse processo, o transdutor do aparelho funciona como uma câmera sensível às vibrações que atravessam músculos, órgãos e artérias. Ao conduzir o equipamento sobre sua pele em movimentos que rompem com os protocolos da clínica, Mazzoni produz autorretratos sonoros, visualidades que surgem da interação entre corpo, imagem, som e gesto.
As obras revelam uma corporeidade viva e pulsante, abrindo caminho para um território imagético que transborda a anatomia e alcança dimensões metafísicas. Em "Ecotopia", essas paisagens internas se apresentam como miragens construídas por ecos, uma instância em que o som deixa de ser ruído e a imagem ultrapassa o estatuto da fotografia.
Ecotopia
Suas composições, que lembram partituras visuais, convidam o visitante a perceber o corpo como energia contínua, matéria que não se dissipa e que segue vibrando no cosmos. A exposição conta com a curadoria de Eder Chiodetto e segue até o dia 8 de março, com entrada gratuita, no Museu Inimá de Paula, em Belo Horizonte (MG).
Obras de artista xamã
Outra exposição que me chamou a atenção fora do Espírito Santo está no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), que reúne 121 desenhos de André Taniki Yanomami raramente exibidos ao público, que revelam visões xamânicas e uma ecologia espiritual.
Taniki é xamã, guardião político e espiritual de sua comunidade, sendo responsável por “segurar o céu”, garantindo o equilíbrio cósmico, além de curar doenças e mediar relações. A expressão "yanomami në utupë" significa “ser imagem” e designa a essência vital de todos os seres, visível apenas aos líderes espirituais em visões xamânicas.
Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp; e Mateus Nunes, curador assistente do Masp, a mostra apresenta obras raramente exibidas ao público — 78 delas nunca exibidas antes —, que retratam a cosmologia yanomami, na qual humanos, animais, espíritos, floresta e céu coexistem em uma mesma ecologia espiritual.
“Para os Yanomami, antes dos seres, espíritos e emoções existirem em corpo, eles existem em imagem. Tudo acontece primeiro em imagem, portanto, o conhecimento se dá através da visão, não da explicação”, afirma Mateus Nunes.
Os desenhos de Taniki se relacionam com práticas visuais tradicionais dos Yanomami, como a pintura corporal. O artista-xamã torna o âmago visível ao retratar com linhas e cores suas experiências xamânicas, muitas delas realizadas sob o efeito de rituais com yãkõana, pó alucinógeno similar à ahayuasca, feito a partir de cascas de uma árvore amazônica, que permite a comunicação com os xapiri pë (espíritos ancestrais).
O primeiro núcleo da exposição é composto por 43 obras pertencentes à coleção da fotógrafa suíça-brasileira Claudia Andujar. Em 1977, Andujar convidou Taniki a expressar por meio de desenhos a morte de Celina, esposa do líder da aldeia Hewë nahipi, onde o xamã então vivia. Com Andujar, Taniki desenhou pela primeira vez suas visões sobre o papel, registrando o ritual funerário reahu, cerimônia central na cosmologia yanomami.
Feitos com canetas hidrográficas em tonalidades de preto, roxo e vermelho, esses trabalhos descrevem o ciclo da morte e as cerimônias em torno dela. Cada trabalho desse grupo tem no verso anotações bilíngues em yanomami e português, feitas por Andujar, Taniki e pelo missionário Carlo Zacquini logo após a finalização de cada desenho, compondo importante documentação sobre costumes e crenças. A exposição apresenta as descrições desses desenhos e a publicação lançada na abertura da exposição adentra com profundidade em sua análise ritualística.
O segundo conjunto de desenhos compreende 78 obras inéditas, oriundas da coleção do antropólogo francês Bruce Albert, célebre por ser uma das maiores referências na antropologia quanto aos estudos Yanomami. Albert é coautor, com Davi Kopenawa, do livro A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. Essas obras de Taniki, feitas em 1978 com pastel oleoso e caneta hidrográfica sobre papel, formam composições mais abstratas e com campos de cor vibrantes.
Mostra mexicana
Minerva Cuevas: ecologia social
Outra que destaco aqui, também sediada no Masp, é a "Minerva Cuevas: ecologia social", da artista conceitual mexicana Minerva Cuevas, que traz um contexto multidisciplinar, com instalação, escultura, pintura, cartazes e vídeo e aborda as conexões entre questões ambientais e estruturas sociais.
Com 42 obras, é a maior mostra individual da artista no Brasil. Utilizando diversos suportes e mídias, como instalação, murais, pintura e vídeo, Cuevas investiga criticamente os mecanismos do capitalismo e seus impactos no meio ambiente. Para a obra "Understorm" (2022), Cuevas mergulha uma pintura garimpada em chapopote (piche), que escorre pelas bordas dessa e de outras telas antigas.
A manipulação evoca derramamentos de petróleo decorrentes de plataformas e navios da indústria petroquímica. O material, conhecido como piche no Brasil, é um derivado do petróleo, mas também remete a costumes de comunidades pré-hispânicas que o empregavam em diversos contextos, desde a impermeabilização de cerâmicas até a prática ritual.
Com curadoria de André Mesquita curador do Masp e assistência de Daniela Rodrigues, supervisora de mediação e programas públicos do Masp, a mostra encerra o ciclo de 2025 dedicado às histórias da ecologia. A exposição explora as dimensões sociais, econômicas e políticas da ecologia, questionando como as dinâmicas de poder moldam as relações entre humanos e não humanos.
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