Nunca em outro momento da humanidade nós tivemos à nossa disposição tanta tecnologia, e nunca acompanhamos em tempo real o desenvolvimento de vacinas. Pela primeira vez, conseguimos o maior feito da ciência: vacinas seguras e eficazes para controlar uma pandemia, mas ao mesmo tempo temos que lutar contra a epidemia de desinformação.
Não bastasse isso, o Brasil, reconhecido pelo maior e mais completo Programa de Imunização do mundo, nosso PNI, se queda paralisado. Um plano de vacinação que até o momento mais parece uma carta de intenções, sem especificar como e quando atingiremos os 70% da população para a imunidade coletiva, ou de rebanho. Que não detalha ordem de prioridades frente às poucas vacinas que dispomos e que deixa à mercê de Estados e municípios a tarefa de organizar, por eles mesmos, a campanha.
São erros consecutivos que vão se consolidando e deixando o país atrasado na campanha de vacinação mais importante dos últimos tempos. Frente à única possibilidade de retomarmos a nossa vida com a mínima normalidade, estão as vacinas. O governo foi errático em sua estratégia de compra e aquisição das vacinas e agora erra em sua distribuição e falta de coordenação.
Como consultora inicial do Plano de Vacinação contra a Covid-19, eu e outros colegas esperávamos mais. Esperávamos que o mínimo fosse feito. Na dificuldade de ampla oferta de doses, o governo federal precisava rever as fases e definir as prioridades dentre as prioridades. Na fase 1, profissionais de saúde em linha de frente, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, população idosa institucionalizada e idosos acima de 75 anos. Nós só temos vacinas para essa fase, que no Brasil chega a quase 15 milhões de pessoas. Com as 6 milhões de doses da Coronavac e as 2 milhões da AstraZeneca, não poderíamos atingi-la no primeiro momento.
O governo deveria ter feito as contas. Os critérios já haviam sido definidos: populações vulneráveis para infecção e morte. Os profissionais da linha de frente (apenas esses por enquanto), indígenas, quilombolas, ribeirinhos e idosos com mais de 75 anos. Esses últimos, como prioridade para impactar a curva de óbitos. Finalizando esses, os outros profissionais de saúde seriam vacinados, assim como estudantes da área de saúde. Era dessa forma que deveria ter sido feito.
No entanto, ao retirar a ordenação por fase, na última versão do Plano Nacional de Vacinação, o governo abriu brechas para que a confusão se instalasse na campanha e cada Estado definiu sua própria prioridade.
Israel, o país com maior sucesso na campanha de vacinação até o momento, está nos dando a lição: a curva de óbitos começa a ter impacto com 70% da população acima de 60 anos vacinada. Essa deve ser nossa meta. Vacinar idosos, impactar na mortalidade e ir descendo até que todos os maiores de 18 anos estejam vacinados ainda este ano.
A vacina da AstraZeneca, que tem um intervalo maior entre as doses, devia ser utilizada em populações de mais difícil acesso, indígenas, ribeirinhas e quilombolas. O acesso a algumas comunidades no Norte do país pode levar até 15 dias. Uma vacina com intervalo de 28 dias torna a missão complexa.
Em um país diverso e de dimensões continentais como o Brasil, a distribuição das doses deveria ser regionalizada, levando em conta os locais com maior dificuldade de acesso. Faltam no Ministério da Saúde pessoas que saibam o que estão fazendo e que possam tomar as decisões de forma assertiva. O que vimos até o momento é uma sequência de erros básicos.
O Amazonas deveria ter uma ação individualizada. A emergência de mutações que podem impactar toda a estratégia de vacinação é real. Faltou um cerco sanitário ao Estado para impedir a circulação de variantes, com controle de entrada e saída e instituição de quarentena. Agora, falta um plano diferenciado de vacinação para enviar mais vacinas e impedir a circulação do vírus e uma terceira onda da doença.
O Brasil pode fazer melhor. Temos experiência e competência, mas infelizmente essas duas qualificações não se encontram no comando da pasta do Ministério da Saúde e muito menos na autoridade acima dele. Nós, como pesquisadores, seguimos fazendo a nossa parte, alertando sobre os erros e esperando suas correções para o pleno sucesso da vacinação no Brasil.
Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta