A arte, ao longo da História, teve o papel de revelar a interpretação do artista sobre seu tempo vivido. Dois grandes pintores retrataram, com diferença de quase 400 anos, “O Triunfo da Morte”. O primeiro, um espanhol, retratando a grande peste negra na Europa e o segundo, um judeu alemão, em uma releitura do primeiro, pinta os horrores do nazismo simbolizando a destruição da cultura ocidental, destroçada nos escombros. A figura da morte, em destaque nos dois quadros, nos relembra a morte triunfante no Brasil.
Como não sei pintar, terei que usar as palavras para descrever para as próximas gerações como seria essa representação. E precisarei te pedir que me empreste a sua imaginação para expressarmos a pandemia da Covid-19, que até agora dizimou mais de 225 mil brasileiros. Como seria?
A tela grande mostraria também a morte triunfante. Ela traz em uma das mãos uma tocha e em outra um objeto de sopro. O objeto em sua mão direita se dirige à boca da morte e através dela um sopro de pestilência recai sobre as pessoas, que sucumbem aos seus pés. Com sua mão esquerda, a tocha queima florestas milenares e a morte de centenas de animais revela a face do horror.
Ao centro, imagens cadavéricas de corpos empilhados em covas rasas abertas abaixo de um céu nublado, se misturam com animais selvagens queimando em agonia. Ao lado da morte, um grupo sorri para a floresta queimada e para as covas abertas, enquanto sussurra no ouvido da morte para que ela continue seu trajeto.
Uma figura solitária cava novas covas, em um trabalho que não tem fim. Acima da entrada do cemitério, uma placa escrita “afaste-se” lembra aos visitantes que ali não é lugar para os vivos.
Os vivos estão espalhados. Alguns choram solitários, outros gritam em desespero. Outros com olhos vendados e sem ouvidos caminham entre os vivos e tentam convencer um grupo reunido que o que eles estão enxergando não é real. Um pouco abaixo dessa cena, um grupo dança e bebe ao som de música enquanto espera o sopro pestilento da morte. E algumas pessoas seguem por um caminho estreito carregando seus pertences, escapando do horror para esperar por dias melhores.
O corpo de animais queimando em dor e desespero, misturado com o choro das famílias em agonia, impedidas de prestar suas últimas homenagens nos ritos póstumos, finalizam a parte central do quadro.
Uma figura desbotada, envolta em uma bandeira patriótica sem brilho, está posicionada entre os vivos e os mortos. Ela representa a esperança, mas seu rosto sem face já não olha mais a humanidade. Em suas mãos ela segura a dose de esperança que pode mudar esse quadro. Um grupo se aproxima e uma mulher vestida de branco toca seu ombro e aponta o braço onde a dose de esperança será lançada.
Sei que é um quadro pavoroso a representação da realidade, não mais que a própria realidade. Mas essa releitura um dia também será História. Até lá, observe bem em qual parte do quadro você está e onde é possível que a esperança te toque. No fim, é fundamental que possamos perceber, que às custas de muitas vidas ou de poucas, demos, sem exceção, a volta a todos os problemas e crises do passado. Desta vez, também iremos superá-las. A esperança foi alcançada.