Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Pandemia

O triunfo da morte: uma releitura do nosso tempo

Como a arte expressaria a pandemia da Covid-19, que em um ano dizimou mais de 220 mil brasileiros?

Publicado em 04 de Fevereiro de 2021 às 02:00

Públicado em 

04 fev 2021 às 02:00
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

Familiares de Lidiane no cemitério de Santo Antônio
Às custas de muitas vidas ou de poucas, demos, sem exceção, a volta a todos os problemas e crises do passado. Desta vez, também iremos superá-las Crédito: Ricardo Medeiros
A arte, ao longo da História, teve o papel de revelar a interpretação do artista sobre seu tempo vivido. Dois grandes pintores retrataram, com diferença de quase 400 anos, “O Triunfo da Morte”. O primeiro, um espanhol, retratando a grande peste negra na Europa e o segundo, um judeu alemão, em uma releitura do primeiro, pinta os horrores do nazismo simbolizando a destruição da cultura ocidental, destroçada nos escombros. A figura da morte, em destaque nos dois quadros, nos relembra a morte triunfante no Brasil.
Como não sei pintar, terei que usar as palavras para descrever para as próximas gerações como seria essa representação. E precisarei te pedir que me empreste a sua imaginação para expressarmos a pandemia da Covid-19, que até agora dizimou mais de 225 mil brasileiros. Como seria?
A tela grande mostraria também a morte triunfante. Ela traz em uma das mãos uma tocha e em outra um objeto de sopro. O objeto em sua mão direita se dirige à boca da morte e através dela um sopro de pestilência recai sobre as pessoas, que sucumbem aos seus pés. Com sua mão esquerda, a tocha queima florestas milenares e a morte de centenas de animais revela a face do horror. 
Ao centro, imagens cadavéricas de corpos empilhados em covas rasas abertas abaixo de um céu nublado, se misturam com animais selvagens queimando em agonia. Ao lado da morte, um grupo sorri para a floresta queimada e para as covas abertas, enquanto sussurra no ouvido da morte para que ela continue seu trajeto.
Uma figura solitária cava novas covas, em um trabalho que não tem fim. Acima da entrada do cemitério, uma placa escrita “afaste-se” lembra aos visitantes que ali não é lugar para os vivos.
Os vivos estão espalhados. Alguns choram solitários, outros gritam em desespero. Outros com olhos vendados e sem ouvidos caminham entre os vivos e tentam convencer um grupo reunido que o que eles estão enxergando não é real. Um pouco abaixo dessa cena, um grupo dança e bebe ao som de música enquanto espera o sopro pestilento da morte. E algumas pessoas seguem por um caminho estreito carregando seus pertences, escapando do horror para esperar por dias melhores.
O corpo de animais queimando em dor e desespero, misturado com o choro das famílias em agonia, impedidas de prestar suas últimas homenagens nos ritos póstumos, finalizam a parte central do quadro.
Uma figura desbotada, envolta em uma bandeira patriótica sem brilho, está posicionada entre os vivos e os mortos. Ela representa a esperança, mas seu rosto sem face já não olha mais a humanidade. Em suas mãos ela segura a dose de esperança que pode mudar esse quadro. Um grupo se aproxima e uma mulher vestida de branco toca seu ombro e aponta o braço onde a dose de esperança será lançada.
Sei que é um quadro pavoroso a representação da realidade, não mais que a própria realidade. Mas essa releitura um dia também será História. Até lá, observe bem em qual parte do quadro você está e onde é possível que a esperança te toque. No fim, é fundamental que possamos perceber, que às custas de muitas vidas ou de poucas, demos, sem exceção, a volta a todos os problemas e crises do passado. Desta vez, também iremos superá-las. A esperança foi alcançada.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem BBC Brasil
Você acorda no meio da madrugada? Entenda o que pode estar acontecendo
Renata Rasseli relata história de superação em entrevista no Caldeirão
Colunista de A Gazeta relata história de superação em entrevista no Caldeirão com Mion
Homem de 27 anos foi preso suspeito de tentativa de latrocínio em Guarapari
Assaltante é preso em Vila Velha após esfaquear e roubar vítima em Guarapari

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados