Entre poeira, concreto e memórias, a primeira torre de controle do antigo Aeroporto de Vitória vem, gradualmente, desaparecendo desde abril. Os últimos vestígios do terminal “aposentado” em 2018, com a inauguração de um espaço mais moderno, têm desmanche previsto para ser concluído ainda neste semestre, segundo a Zurich Airport Brasil, concessionária do Vitória Airport.
De acordo com a empresa, no local onde hoje restam apenas partes da estrutura física, sem função operacional, será construído um hangar — estrutura para abrigo e manutenção de aeronaves.
Enquanto os resíduos gerados pela demolição são distribuídos, ex-controladores de tráfego aéreo relembram, com saudade, a rotina no alto da velha torre, inaugurada em 1946 juntamente com o terminal aereportuário.
Solange Cristina Sacramento, por exemplo, foi a primeira mulher controladora no Espírito Santo, ingressando no posto em 1991, após uma preparação que envolveu concurso público e estágio probatório antes de, efetivamente, ser considerada apta ao trabalho.
“Hoje, muita gente já tem noção, mas, antigamente, quando não se falava, ninguém sabia o que era a profissão. Quando fiz o concurso, nem eu sabia. Estava procurando um emprego, me falaram desse processo, fiz a prova, depois me apaixonei", recordou-se.
A conexão com a torre era próxima — e, no começo, de forma até bem literal. Por uma falha de comunicação, que a levou a ficar sem ter onde morar, Solange passou os primeiros meses no cargo vivendo em um alojamento militar dentro do aeroporto, bem ali, ao lado da torre de controle.
Ela lembra que acordava com a pancada de avião pousando na pista e conta que, em caso de acidente, restos de aeronaves eram levados para lá, bem à vista da janela do quarto.
“E eu amava o que fazia. Recebi a notícia de que ia sair com tristeza. Não queria me aposentar; é uma profissão apaixonante demais. E, naquele tempo, era tudo bem prosaico, não tinha radar. Mas, depois que trabalhei todos esses anos controlando voo no tacape, acho que nem estava muito afim. Era emocionante.”
O peso da responsabilidade em uma época mais “analógica” é lembrado por Edson Alkimin, que atuou no serviço de tráfego aéreo de Vitória durante três décadas, iniciando a carreira como controlador também em 1991, aos 25 anos.
“A nossa rotina era de muita concentração, pois, naquela época, só tínhamos anemômetros, barômetros, telefone, papel e caneta, além do rádio para orientar o piloto. Ele nos dava a posição em relação à Vitória e tínhamos que fazer os cálculos de cabeça ou num rascunho de papel para identificarmos pontos de conflitos e ordenar manobras", relembra-se.
Com o passar dos anos e o aumento da movimentação nos céus capixabas, foi necessário adotar mais tecnologias para auxiliar o serviço, que vai muito além da orientação de pousos e decolagens no Aeroporto de Vitória.
Da torre de controle de Vitória, são coordenados voos que pousam ou decolam da Capital, de Guarapari, Vila Velha, do quartel geral da Polícia Militar, do 38º Batalhão, da Escola de Aprendizes da Marinha. É de lá também que são controlados vários helipontos espalhados pela Grande Vitória.
E não só isso. É preciso separar os tráfegos de aeródromos do Estado e de outros que cruzam o espaço aéreo da Grande Vitória, atravessando do Sul para o Nordeste brasileiro e vice-versa.
Neste vai e vem aéreo, alguns momentos se destacam na memória do ex-controlador, que já chegou a controlar, pessoalmente, 14 aeronaves ao mesmo tempo, no início da carreira – o dobro da recomendação atual, a despeito das novas tecnologias.
“Isso foi no começo. Houve outro momento marcante no final do nosso serviço naquela torre antiga, quando o aeroporto ficou fechado para pouso e decolagem por cinco dias por motivo de chuva em Vitória. Era um mês de outubro, não me lembro de qual ano. Quando o tempo melhorou e o aeroporto reabriu, foi terrível".
Alkimim relembra que mais de 20 voos estavam atrasados e havia filas de aviões tentando pousar em Vitória: “Eram muitas vidas sob nossa responsabilidade naquele momento. E os aviões tinham que pousar e decolar num espaço pequeno. Aquela operação, para mim, foi demais, pois deu tudo certo. Foi espetacular o serviço de controle e coordenação para encaixar todas aquelas necessidades. Me orgulho muito daquela equipe da qual fiz parte naquele momento".
Diante da demolição da torre a partir da qual tantas vidas foram guiadas, o ex-controlador de tráfego aéreo conclui: “Sinto saudades daquele tempo, sinto orgulho também de ter trabalhado tanto tempo naquele espaço. Apesar de precário quanto à estrutura física e quanto a equipamentos para nos auxiliar no serviço de controle, a gente teve uma grande história naquele lugar".