“Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos. Foi a idade da sabedoria, foi a idade da tolice. Foi a época da fé, foi a época da incredulidade. Foi a estação da luz, foi a estação das trevas. Foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero. Tínhamos tudo diante de nós, não havia nada antes de nós. Todos íamos direto para o céu, todos íamos direto para o outro lado.” Com essa abertura, o escritor Charles Dickens inicia seu livro "O Conto de Duas Cidades" e nele nos lembra magistralmente sobre escolhas, sobre de que lado da guerra vale a pena lutar.
Completamos um ano de luta contra um vírus que mudou o mundo e nos impôs um outro normal. A palavra “NORMAL” ganhou novos significados. Esse estado de coisas que ocorre de maneira habitual e que segue um modelo, um padrão e que define nossa forma de existir no mundo, passou no último ano por uma prova de fogo.
Vivíamos em um tempo em que se considerava normal que pessoas pudessem viver em casas sem água tratada e sem banheiro, quem dirá rede de esgoto. Em que termos a terceira população encarcerada do mundo, sendo a maioria formada por jovens negros, era normal. Onde escolas públicas sem estrutura, professores desvalorizados e estudantes sem acesso ao mínimo necessário para sua educação eram também parte do normal. A pandemia, que fez parar o mundo, nos mostrou todas essas inconsistências da normalidade na qual vivíamos.
A expressão “novo normal” passou a integrar nosso vocabulário, indicando que usar máscaras, evitar aglomerações, bem como manifestações de afeto como abraços, beijos e o simples aperto de mãos, foram sendo substituídos por gestos de afetividade com maior distanciamento físico, no padrão adequado de comportamento.
Para além disso, o novo normal, essa parada obrigatória de nossas atividades pela pandemia, indicava que, da saída da previsibilidade do nosso cotidiano, poderia advir algo melhor. Ao voltarmos ao controle de nossas vidas, haveria uma expectativa de um “outro normal”.
Nesse outro normal, quem sabe seria possível um mundo com menos injustiças sociais. Onde o protagonismo da ciência, a relevância da educação e o surgimento de líderes verdadeiramente comprometidos com a democracia seriam normais. Onde uma nova experiência coletiva, maravilhar-se com o mundo e tentar solucionar problemas que afetem a todos seria a ótica predominante.
Nesse outro normal possível, haveria o exercício de compreensão de si mesmo e do outro. A ciência seria reconhecida e haveria financiamento para as novas descobertas em diversas áreas e ela no guiaria por veredas inóspitas e chegaríamos mais rápido em lugares nunca visitados. Poderíamos enfim, descobrir a cura de doenças, até então, não descobertas e lançar luz em outras tantas áreas que necessitam ainda de inovações.
A educação, quem sabe, poderia ganhar a importância que merece, e os professores, o reconhecimento e o salário compatíveis com sua nobre função. Talvez, apenas talvez, seria possível um mundo onde a educação fosse o alicerce para a mobilidade social e em que ser educador estivesse no imaginário de novas gerações.
Talvez nesse novo normal, poderíamos escolher “o melhor dos tempos, a idade da sabedoria, a época da fé, a estação da luz, a primavera da esperança”.
Não sei se tudo isso será factível, mas quero crer que, ao adentrarmos no outro normal possível pós-pandemia, além de abraços e apertos de mãos, possamos ampliar nossa compreensão de que o mundo precisa de gente que não esteja em distanciamento, mas em aproximação social com os nossos desafios de coexistência. E em que a exploração de outro ser humano possa, de fato, ser posicionada historicamente naquele normal de um período pré-pandemia. Que venha 2021 e com ele, as sonhadas vacinas contra a Covid-19 e também contra o ódio e a ignorância.