Imagine um emprego duro, exercido longe de casa e da família, mês aqui, mês acolá, com jornadas extenuantes, horários rigorosamente controlados, notavelmente perigoso, seu corpo e sua mente indo ao limite a cada dia. Um trabalho que, dadas as exigências e a pressão, fazem você se aposentar precocemente. Os salários, a não ser que você seja contratado pelas maiores, porém poucas empresas, e, ainda assim, se destaque dentro delas, não difere de uma profissão razoável qualquer.
Imaginou? Detalhemos mais:
Grande parte da jornada é cumprida ao ar livre, do sol escaldante a chuvas torrenciais, do calor sufocante do deserto à neve do rigoroso inverno. Seu empregador diz a hora que você deve acordar e dormir, controla quando e o que você deve comer. Durante todo dia, seu chefe está dando ordens ao seu lado, com um megafone ou um rádio no ouvido. Até mesmo em dias de descanso você trabalha, mas menos, só para não perder o foco.
Acidentes? 100% de chances de sofrer não só um, mas vários, durante a curta carreira profissional. Há duas semanas, um bravo trabalhador, o holandês Wouter Poels (32 anos), no início da jornada, fraturou uma costela e teve hematomas no pulmão. Foi encaminhado ao hospital? Sim, mas depois que deu seu o horário. Feito o diagnóstico, retornou no dia seguinte para o trabalho, “optando” por se recuperar fazendo o que sempre faz. Não teve licença médica ou afastamento previdenciário.
Em 2019, outro trabalhador, o queniano Christopher Froome (35 anos), sofreu um acidente grave, com fraturas múltiplas: quebrou a perna, costelas e ombro. Após meses de recuperação, retornou recentemente ao trabalho, porém sem o mesmo desempenho d’antes. Sem estabilidade, está cumprindo aviso prévio. Por ser um profissional renomado em sua área, teve sorte ao conseguir um contrato numa empresa menor.
Descobriu?
A descrição e os fatos acima dizem respeito ao trabalho do ciclista profissional. Os exemplos se referem à nata, atletas de ponta no World Tour (a 1ª divisão do esporte): Poels e Froome são muito bem remunerados (este último, um dos mais ricos atletas do mundo), mas a situação serve muito bem às equipes pequenas, que sofrem para pagar suas contas, espalhadas mundo afora.
No próximo domingo (20), na Champs-Élysées, ocorrerá a última etapa do “Tour de France” 2020, o evento esportivo de maior audiência mundial. São percorridos aproximadamente 3.200km por todo o país, divididos em 21 etapas consecutivas (intercaladas por apenas dois dias de descanso). Largam 176 dos melhores atletas do planeta, das 22 melhores equipes, mas muitos desistem (por acidentes ou exaustão). Até a 15ª etapa (13.09) 20 atletas já abandonaram.
O Brasil está longe de ter atletas e equipes de alto nível profissional. Um dos motivos, imagino, além do descaso governamental com o esporte, é a própria legislação trabalhista. Forçando a barra, imagine-se aplicar a CLT no ciclismo. Numa prova de 5 ou 6 horas, os atletas seriam obrigados a parar juntos para almoçar, seriam proibidos de pedalar com batimento cardíaco elevado ou acima de determinada velocidade, para se evitar um infarto ou um acidente. Isso sem falar na proibição de se premiar os campeões. Afinal, nossa CLT se baseia no modelo taylorista de produção, onde o desempenho individual do trabalhador é castrado e a remuneração deve ser igual para todos, sob pena de uma ilusória discriminação.
Se o ciclismo profissional fosse regulado pela CLT as corridas se tornariam passeios sem graça, os prêmios seriam iguais para todos, medalhinhas de “finisher”. Não haveria valorização dos talentos pessoais e muito menos do esforço individual. A superação de limites seria considerada heresia. Que sorte a nossa que a CLT só se aplica às empresas.