É amplamente conhecido que, desde o início da pandemia, o governo federal, liderado por Jair Bolsonaro não tem tratado a crise sanitária com a seriedade necessária. Na verdade, em vez de ser um aliado da população brasileira no combate à pandemia, parece que o governo Bolsonaro preferiu se aliar ao coronavírus. Sempre pautado num discurso alheio à ciência, totalmente negacionista, o presidente distorce os dados e os fatos concretos para minimizar a gravidade da pandemia, a despeito de o Brasil ser o segundo país com maior número de mortos pelo coronavírus.
Não se pode deixar de registrar que, contrariando o que se espera de um chefe de Estado, o presidente nunca demonstrou compaixão pelos que se foram e pelas famílias enlutadas. Tampouco Bolsonaro incentivou a população a se cuidar, sua mensagem foi em sentido oposto, sempre zombando da pandemia, indicou tratamentos inexistentes, promoveu aglomerações, espalhou mentiras e tentou desincentivar a campanha nacional de imunização, tudo em nome de uma politização da pandemia e da banalização das mortes.
Dois ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, não aceitaram permanecer em seus cargos porque o presidente sempre colocou a politicagem como mais relevante que o saber científico. Após algum tempo sem titular, a pasta foi assumida pelo general Eduardo Pazuello. Foi aí que, definitivamente, a política assumiu o posto que deveria ser ocupado pela ciência.
Tido pelo governo federal como expert em logística, Pazuello mostrou-se inepto inclusive na logística de distribuição de insumos, medicamentos e vacinas. Apesar de saber do caos na saúde pública no Amazonas na semana do Natal, Pazuello só enviou representantes do Ministério da Saúde a Manaus em 3 de janeiro de 2021. No dia 8 de janeiro o governo federal foi alertado sobre a falta de oxigênio no Amazonas, porém, a ajuda só começou 4 dias depois.
Antes disso, em 6 de janeiro, já havia recomendação para remoção de pacientes, mas o Ministério demorou cerca de dez dias para iniciar o deslocamento. Nesse lapso temporal, muitos agonizaram até a morte, enquanto seus familiares, de mãos atadas, nada podiam fazer, a não ser se desesperar.
Fica evidente que houve omissão, descaso e falta de planejamento por parte do governo federal (que concentra a maior parte dos recursos públicos e logísticos) que, mesmo sabendo da iminência do colapso, nada fez para evitar que o caos se concretizasse. Em vez de enviar oxigênio a Manaus e remover os pacientes, Pazuello preferiu enviar mais cloroquina, remédio comprovadamente ineficaz contra o coronavírus.
As dificuldades relacionadas ao transporte do oxigênio à região Norte do país eram fato de conhecimento do Ministério e do governo federal, haja vista ser amplamente difundido o péssimo estado das rodovias que ligam o Norte às demais regiões do Brasil, aspecto que antes mesmo da pandemia pesava no “Custo Brasil”. Parece ter sido mais fácil a Venezuela enviar oxigênio para salvar os pacientes do Amazonas do que o próprio governo federal providenciar a ajuda que se fazia necessária com máxima urgência.
A relutância do governo federal em antecipar-se na negociação de vacinas e insumos coloca o Brasil em posição de desvantagem. Agora, com boa parte das vacinas encomendadas por países que souberam se planejar, torna-se mais complicada a aquisição de vacinas pelo Brasil, que terá menores condições de negociar os preços cobrados pelos imunizantes, já que a demanda supera, em muito, a oferta.
Em meio a todo esse caos, o governo federal preferiu gastar mais de R$ 15 milhões com leite condensado, outros R$ 2 milhões em chicletes, sem contar os estoques lotados de cloroquina, enquanto muitos brasileiros passam fome sem o Auxílio Emergencial e inúmeros morrem asfixiados. Por conta disso, o ministro Pazuello é investigado no Supremo Tribunal Federal, a pedido da Procuradoria-Geral da República, por omissão no combate à pandemia. Já o Tribunal de Contas da União destacou a ilegalidade dos gastos públicos com a aquisição desmedida de cloroquina.
A presença de Bolsonaro na presidência e de Pazuello à frente do Ministério da Saúde são as principais armas do coronavírus contra o Brasil. Não é coincidência que mesmo tendo menos de 3% da população mundial, o Brasil representa mais de 10% do total de mortos pelo coronavírus.