Assim como Lula tem seus apoiadores incondicionados, que ficavam no portão da sede da Polícia Federal em Curitiba gritando “bom dia, presidente Lula”, Bolsonaro tem seu grupo de cultuadores. Na última terça-feira (05), ao conversar com seus apoiadores, que ficam numa espécie de cercadinho em frente ao Palácio da Alvorada, Bolsonaro disse que “o Brasil está quebrado” e que por isso ele não conseguiria fazer nada. Se não bastasse, para driblar o fiasco que tem sido sua gestão, mais uma vez, tentou colocar a culpa na mídia e minimizar a pandemia.
O presidente deveria ter a hombridade de reconhecer, ainda que sob sua perspectiva embaçada, quais aspectos do Brasil ele acredita que podemos avançar, destacando onde estão os acertos e erros da gestão atual, haja vista que todos os governos (de esquerda ou de direita) são compostos por pessoas e, nessa condição, são aptos a cometer desacertos, bem como capazes de corrigi-los. Porém, para corrigir e ajustar condutas, é preciso ter a coragem de fazer a autocrítica e vontade para mudar, do contrário, tudo continuará como está ou piorará.
Essa coragem Bolsonaro não teve, comportou-se como um governante frouxo porque sua vaidade é tão grande a ponto de cegá-lo e transportá-lo para uma realidade paralela. Não se governa um país olhando-se pelo retrovisor no intuito de colocar a culpa pelos problemas sob a responsabilidade dos adversários. A história e os governos antecessores devem servir como uma lição ao governo atual e aos vindouros, acolhendo-se e aprimorando-se o que deixaram de bom e corrigindo eventuais vicissitudes.
Entretanto, um dia após dizer que não conseguia fazer nada porque “o Brasil está quebrado”, coerente em sua incoerência, Bolsonaro voltou atrás e declarou que o país “está uma maravilha”. Se o Brasil estivesse realmente quebrado como disse outrora o presidente, a ponto de impedi-lo de governar, por qual motivo Bolsonaro decidiu disputar a presidência de um país que ele trata como ingovernável?
A situação financeira e orçamentária das contas públicas, de fato, não é das melhores. No entanto, isso não impediu que os governos antecessores fizessem muito mais do que tem feito o governo atual! Aliás, se o presidente julga que o Brasil está quebrado, ele poderia ter apresentado quais foram as ações que seu governo tomou após mais de 2 anos de gestão para amenizar a situação. Mas é mais fácil tentar empurrar a culpa pelo fracasso para a imprensa ou para quem nem sequer está no governo.
Não, o Brasil não está quebrado, está desgovernado! Um país quebrado não insiste em realizar vultosas renúncias fiscais, por exemplo. Se o presidente considera-se inapto a fazer algo pelo país, como diz a sabedoria popular, “muito ajuda aquele que não atrapalha”.
Então, já que não quer ajudar a resolver os problemas do país, Bolsonaro poderia ao menos não prejudicar ainda mais, como quando incentiva as aglomerações, induz à automedicação com drogas ineficazes contra o coronavírus, cria fake news sobre o uso de máscaras e o trabalho da ciência, dissemina o ódio e a intolerância, e por aí vai.
Bolsonaro também acusou fabricantes de seringas de elevar preços e disse que, por isso, o governo suspendeu a compra. Ora, não são os bolsonaristas, que têm como guru econômico Paulo Guedes, que defendem um liberalismo econômico sem qualquer limitação?
De mais a mais, caso houvesse um planejamento pelo governo federal, as seringas e agulhas já teriam sido adquiridas há bastante tempo, e é despiciendo asseverar que planejar alguma ação significa se preparar para algum evento ou acontecimento futuro, no caso, a necessidade dos utensílios para aplicação das vacinas.
Na verdade, a declaração estapafúrdia de Bolsonaro nada mais foi senão uma tentativa frustrada no afã de justificar o fracasso da licitação realizada semana passada pelo Ministério da Saúde, quando a pasta conseguiu adquirir apenas 7,9 milhões das 331 milhões de seringas que governo tentou comprar.
A inapetência do governo central em buscar soluções para os principais problemas do Brasil, sobretudo o controle da pandemia e a correlata vacinação, impõe aos governos estaduais e municipais a missão de liderança. O Brasil não pode continuar sendo o eterno “país do futuro”. O futuro começa agora, o Brasil deve ser o país do presente!