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Política

Como o resultado das eleições de 2020 pode favorecer Bolsonaro

Muito embora o PSDB, MDB e o DEM (independentes do bolsonarismo) tenham eleito prefeitos que vão governar o maior número de habitantes, os vitoriosos foram os partidos do Centrão, grupo marcado por práticas fisiológicas

Públicado em 

04 dez 2020 às 05:00
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

Jair Bolsonaro em reunião virtual da cúpula do G20
Jair Bolsonaro em reunião virtual da cúpula do G20 Crédito: Marcos Corrêa/Presidência/Agência Brasil
Apesar de alguns analistas afirmarem que o resultado das eleições municipais de 2020 representa o enfraquecimento do bolsonarismo, não se trata de um dado concreto. De fato, dos 63 candidatos apoiados diretamente por Bolsonaro, foram eleitos apenas 11 vereadores e 5 prefeitos, a maioria no interior. Destacando-se as derrotas acachapantes em colégios eleitorais fundamentais: Celso Russomanno e Marcelo Crivella, ambos do Republicanos, em São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente.
Entretanto, seria precipitado concluir que o fracasso dos candidatos dos quais Bolsonaro foi garoto-propaganda seja reflexo de eventual crescimento do movimento antibolsonarista. Em diversas dessas derrotas eleitorais, questões locais foram preponderantes, como o fiasco da gestão do bispo licenciado Marcelo Crivella na capital fluminense e a boa aprovação de Bruno Covas, reeleito sem que Russomanno sequer tivesse chances de ir ao segundo turno em São Paulo.
Além disso, há que se ter em mente que diversos candidatos com forte afinidade político-ideológica com Bolsonaro foram eleitos (ainda que sem o presidente pedindo votos explicitamente), como o Espírito Santo exemplifica com os prefeitos eleitos em Vitória (Lorenzo Pazolini), Cariacica (Euclério Sampaio) e Vila Velha (Arnaldinho Borgo).
Muito embora em 2020 o PSDB, MDB e o DEM (partidos de centro-esquerda e centro-direita, independentes do bolsonarismo) tenham eleito prefeitos que vão governar o maior número de habitantes, foram os partidos que integram o Centrão que saíram vitoriosos na metade dos municípios do país.
O Centrão é um grupo marcado por práticas fisiológicas, com o hábito de apoiar quem estiver no governo e abarca as seguintes legendas: PP, PSD, PL, PTB, Republicanos, PSC, Solidariedade, Avante, Patriota e Pros. A fragilidade ideológica do Centrão é tão clara que o bloco já participou dos governos Lula e Dilma, Temer e agora, faz parte da base aliada de Bolsonaro. Portanto, a expressiva votação nos partidos do Centrão não indica que o eleitor esteja rechaçando os extremos. O Centrão não ameaça a reeleição de Bolsonaro, desde que o governo entregue o que o bloco quer: cargos e verbas federais (uma espécie de “Mensalão legalizado”).
Cabe lembrar, também, que Bolsonaro só foi eleito em 2018 pelo ódio, o ódio ao PT e às bandeiras que o partido dizia defender, tradicionalmente associadas à esquerda: questões sociais, pauta LGBT, igualdade de gênero, direitos trabalhistas etc. Na prática, Bolsonaro, como clássico populista, precisa colocar algum partido como seu antagonista, necessita de um grupo para tratar como inimigo ou ameaça ao país. Em 2018, o “inimigo” escolhido por Bolsonaro foi o PT, já que o Partido dos Trabalhadores acabava de sair de um desgastante processo de impeachment e de uma sequência de manifestações populares.
O PT saiu das eleições de 2020 ainda mais enfraquecido, elegeu menos 71 prefeitos que em 2016 (redução de 28%) e não comandará nenhuma capital. O baixo desempenho foi replicado em outras legendas tratadas como esquerdistas, caso do PDT (perdeu 17 prefeituras), PSB (queda de 37%) e PCdoB (diminuição de 43%).
Porém, no imaginário bolsonarista, a “esquerda” comportaria qualquer partido que ouse discordar de Bolsonaro, inclusive o PSDB, que por muito tempo foi tratado como o principal adversário do PT. Enquanto para os bolsonaristas ultrarradicais o PSDB é comunista, para os petistas, o PSDB seria neoliberal, o que conduz à conclusão de que os tucanos estão, em verdade, mais próximos do centro do que dos extremos ideológicos.
Outro fator que pode favorecer Bolsonaro em 2022 é a falta de uma unidade no bloco de oposição. Caso o PT insista em tentar ser protagonista na próxima eleição e se houver grande capilarização de candidaturas presidenciais na oposição, o risco é que se replique o resultado de 2018. Por isso, os partidos de oposição e independentes a Bolsonaro não devem desprezar as chances de o fundamentalismo político se prolongar, mesmo porque há quem votaria até em Hitler para não votar no PT ou na “esquerda”.

Caio Neri

É graduado em Direito pela Ufes e assessor jurídico do Ministério Público Federal (MPF). Questões de cidadania e sociedade têm destaque neste espaço.

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