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Crise de humanidade

Pandemia deveria servir para o amadurecimento da sociedade

Natural seria que cidadãos e governos se unissem para dar forças uns aos outros. Mas muitas pessoas acostumaram-se às mortes diárias pelo coronavírus, como se a vida humana fosse descartável

Públicado em 

18 dez 2020 às 05:00
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

Pessoas usando máscara durante a pademia
É preciso que, enquanto cidadãos, cada um de nós tenha consciência de seu papel social e cívico de evitar nos tornarmos veículos de propagação do vírus Crédito: prostooleh/Freepik
Há seis meses, escrevi neste mesmo espaço que tem ficado cada vez mais clara uma crise de humanidade. Em momentos de adversidade, como na atual crise de saúde pública, natural seria que cidadãos e governos se unissem para dar forças uns aos outros, socorrendo aos mais vulneráveis e assumindo a bandeira inarredável da defesa da vida. Porém, para muitos, a politicagem importa mais que salvar vidas.
Infelizmente, a crise de humanidade é bem maior e mais extensa do que eu pressupunha em junho, quando o Brasil atingia, até então, o momento mais agudo desta primeira onda pandêmica. Muitas pessoas acostumaram-se às mortes diárias pelo coronavírus, como se a vida humana fosse descartável. Há aqueles, inclusive, que buscam teorias e assertivas de toda sorte para minimizar as vidas perdidas, como se a dor das quase 200 mil famílias brasileiras enlutadas nada significasse.
Os negacionistas de plantão se julgam mais confiáveis e preparados que aqueles que passaram a vida inteira estudando e pesquisando, afinal, para eles, universidade é local de balbúrdia, isto é, espaço vocacionado a fazer as pessoas questionarem e refletirem. Com fundamento em Olavo de Carvalho, canais parciais do YouTube e acreditando piamente nas fake news divulgadas em aplicativos de mensagens, quando alguém falece vítima da Covid-19, os negacionistas arvoram-se em buscar motivos outros para o óbito, por mais teratológicos e irracionais que sejam.
Negacionistas dizem que muitas das mortes decorrentes do coronavírus são mentira, insuflando os incrédulos a abrirem caixões. Pensam que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Parece que regredimos tanto que retornamos à Idade das Trevas, época em que prevalecia intenso obscurantismo e quem ousasse pensar, questionar ou se enveredar pelos caminhos da ciência, corria o risco de ser queimado na fogueira.
Não é natural que a cada dia, seiscentas ou setecentas pessoas tenham suas vidas interrompidas por um vírus que os negacionistas tratam como inofensivo ou inexistente. Ainda que os números de óbitos diários por coronavírus, em certos momentos, apresentaram tendências de queda, não era motivo para comemorar ou reduzir os cuidados. Uma morte que fosse, seria digna de compaixão e respeito!
Meses após o início da pandemia, mesmo os que não são negacionistas, isto é, aqueles que acreditam na existência e no potencial lesivo do coronavírus, têm deixado transparecer condutas que os aproximam dos negacionistas. Basta ver, sobretudo entre os jovens, uma crescente despreocupação com as medidas de prevenção ao coronavírus: bares lotados e com pessoas amontoadas, confraternizações com grande proximidade social, viagens à lazer, exercícios físicos coletivos sem uso de máscaras.
É muito preocupante a realização de festas e viagens de fim de ano como se a pandemia estivesse em recesso. Tais atitudes traduzem comportamentos repletos de egoísmo e vaidade. Egoísmo porque muitos pensam apenas no seu próprio umbigo, não se preocupam em levar em suas malas de viagem um “presente de grego”: o coronavírus. Vaidade porque alguns julgam-se superiores e acreditam ser imunes ao vírus ou que a Covid-19 causar-lhes-ia, no máximo, uma “gripezinha”, como se fossem super-heróis.
Mais que esperar apenas uma postura séria de combate à pandemia por parte do governo central (o que dificilmente haverá), é preciso que, enquanto cidadãos, cada um de nós tenha consciência de seu papel social e cívico de evitar nos tornarmos veículos de propagação do vírus. Ainda que alguém se ache imune ou em condição de vantagem ao vírus, não se pode ser tão egoísta a ponto de minimizar a morte de tantos que se foram!
Definitivamente, este fim de ano não é o mesmo que os anteriores. Não podemos fechar os olhos e nos comportar como se o vírus houvesse desaparecido. Por mais que o isolamento social incomode e que tenhamos vontade de viajar para aproveitar as férias ou matar as saudades de parentes e amigos, este não é o momento!
Festas de fim de ano vão voltar a poder se realizar quando o vírus for controlado. Haverá inúmeros Natais e férias, entretanto, para usufruí-los como queremos, precisamos estar vivos até lá! Neste momento, o distanciamento social é o maior presente que podemos dar àqueles a quem amamos e queremos bem.

Caio Neri

É graduado em Direito pela Ufes e assessor jurídico do Ministério Público Federal (MPF). Questões de cidadania e sociedade têm destaque neste espaço.

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