Ao contrário do que pensam os extremistas, a política não pode nem deve ser entendida como um jogo de futebol ou um campeonato qualquer. Essa noção distorcida, que contribui para a ascensão e manutenção de líderes populistas no poder, por outro lado, é nociva à democracia e contrária ao amadurecimento político da sociedade.
Tal pensamento apenas favorece a manutenção das mesmas pessoas ou dos mesmos grupos no poder, já que seus cultuadores, mesmo diante de provas inequívocas da ineficiência ou até da corrupção, mostram-se indispostos a aceitar a verdade que não lhes agrade. Preferem acreditar na mentira do que se desfazer da ilusão de um falso heroísmo e patriotismo que pregam os líderes populistas.
Quem realmente ama o país e quer um futuro melhor para a nação, assume um compromisso com o país e não com determinadas figuras da política. O populismo almeja apenas o poder, a política séria deve ter comprometimento com o país. Mesmo porque, mudam-se as figuras exercentes do poder, mas perduram as mazelas e os problemas que assolam o país.
Assumir um compromisso com o país significa adotar uma postura política racional e crítica, ainda que, para tanto, vez ou outra, seja preciso reconhecer que aquele que foi eleito com seu voto se equivocou ou não tomou a melhor decisão em determinado assunto. Quem deseja contribuir para um país melhor não pode se portar como um alienado (efeito manada) e tratar os políticos e suas decisões como insuscetíveis de questionamentos ou de aprimoramentos.
Um dos benefícios da democracia representativa é justamente esse: extrair da pluralidade de visões os aspectos positivos que cada uma delas pode fornecer ao país.
Por isso, os antagonistas, aqueles que pensam diferente, não podem ser vistos e tratados como inimigos ou “torcedores contra o país”. O país, ao menos em tese, é uma nação plural, indissociável de sua diversidade. Sem diversidade não há democracia. Entretanto, um político populista não sobrevive por muito tempo sem seu antagonista.
Assim como o PT se aproveitou de um discurso fundado num sectarismo entre “pobres e ricos” ou “Nordeste versus Sudeste”, Bolsonaro foi eleito e apenas se sustenta com base num fajuto discurso “antipetista” e “anticomunista”.
Chega a ser pueril, ou melhor, fanatismo mesmo, acreditar que no partido A só há pessoas honestas e íntegras; enquanto no partido B só haveria criminosos e pessoas má intencionadas, e vice-versa. Como se os políticos da esquerda ou da direita fossem uma espécie de semideuses ou enviados divinos para conduzir a política. Trata-se de uma cegueira deliberada, também conhecido como “ter um político de estimação”, erguendo esse político a um posto de santidade e de heroísmo, à nível messiânico.
Esse talvez seja um dos liames entre Lulistas e Bolsonaristas. Tanto os seguidores do primeiro quanto os cultuadores do segundo sempre arrumam alguma estratégia para refutar qualquer denúncia desabonadora, por mais razoável e factível que seja a acusação. No afã de defender seus ídolos políticos, não é incomum que busquem colocar em dúvida aqueles que se ponham no caminho deles: acusam a imprensa de criar fake news quando não concordam com uma notícia (mas compartilham como verdade inquestionável quando a notícia lhes favorece), insinuam a imparcialidade dos órgãos de investigação quando apontam algum indício de ilicitude contra seus líderes (mas aplaudem incessantemente quando a Justiça investiga e pune seus adversários políticos).
O fanatismo político é uma verdadeira chaga para a democracia brasileira. Como toda chaga, a ferida deve ser fechada para evitar que se avizinhe um mal maior. Porém, ainda que fechada, nossa democracia carregará a cicatriz da chaga do fanatismo político.