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Coronavírus

Eleições no ES foram exemplo de tudo que não se deve fazer na pandemia

O mínimo que se esperava dos candidatos era respeito às normas sanitárias. Para convencer a população de que serão bons gestores ou parlamentares, os políticos deveriam, em primeiro lugar, demonstrar responsabilidade com a vida

Publicado em 13 de Novembro de 2020 às 04:00

Públicado em 

13 nov 2020 às 04:00
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

Uso de máscara de proteção contra o coronavírus
Uso de máscara de proteção contra o coronavírus Crédito: Carlos Alberto Silva
No primeiro turno da eleição de 2020, muitos candidatos e seus cabos eleitorais se comportaram como se não estivéssemos em meio à maior pandemia deste século, que já ceifou a vida de mais de 163 mil brasileiros, entre os quais quase 4 mil capixabas. Os candidatos nem precisariam ter sido alertados que registro de candidatura não é uma vacina contra o coronavírus e que o vírus não tira férias. O mínimo que se esperava dos políticos era respeito às normas sanitárias e compromisso com a defesa da vida.
Mesmo com decretos do governo estadual proibindo a aglomeração de pessoas e a despeito dos reiterados pedidos de autoridades de saúde para que as pessoas usem máscara em locais públicos, o que se viu nas eleições no Espírito Santo foi o oposto disso. A começar pelo uso de máscaras. Diversos candidatos ou se recusavam a usar máscara de proteção facial em seus eventos públicos de campanha ou usavam de modo equivocado.
Houve também os candidatos que, para driblar o uso de máscaras, escolheram utilizar máscaras transparentes, fabricadas com acrílico ou vinil, mas que não são capazes de cumprir a função das máscaras tradicionais. Ou seja, para mostrar o sorriso aos eleitores, inúmeros políticos escolheram usar máscaras “para inglês ver”, expondo sua própria saúde e a dos eleitores aos perigos da contaminação pelo coronavírus.
Algo que não deveria, porém foi visto com uma frequência assustadora foram as aglomerações eleitorais! Se a campanha havia começado com certa timidez, aos poucos os candidatos foram deixando escancarada sua despreocupação com a pandemia e a voracidade, senão, rapacidade, na busca insaciável por votos.
No começo de outubro, após as flexibilizações iniciais, o governo estadual liberou a realização de eventos sociais para até 300 pessoas. Contudo, pelo decreto nº 4736-R, de 19 de setembro, comícios e passeatas eleitorais estão proibidos em todo o Estado. Não satisfeitos, os candidatos fizeram como nos tão criticados “bailes do Mandela”, isto é, apelaram para a clandestinidade.
Cite-se o evento de campanha do candidato Fabrício Gandini, em Vitória, que reuniu mais de 2 mil pessoas, num espaço fechado, no dia 26 de outubro. O comício, além de proibido neste momento, desrespeitou os decretos que impedem a realização de eventos com uma aglomeração tão perigosa, foi marcado pela ausência do uso de máscaras ou seu uso indevido.
O próprio prefeito Luciano Rezende, que é médico, durante o discurso em meio à aglomeração, abriu mão do uso de máscara. Resultado dessa aglomeração eleitoral foi uma explosão de diagnósticos de coronavírus entre os presentes: o candidato Gandini, seu vice Medeiros, o prefeito Luciano Rezende, o deputado Felipe Rigoni e diversos outros presentes.
Nem mesmo a vice-governadora Jaqueline Moraes respeitou as normas editadas pelo governo capixaba. A vice-governadora, que entrou de férias para participar ativamente das campanhas eleitorais de seus aliados, foi flagrada usando indevidamente a máscara de proteção facial e protagonizando aglomerações eleitorais. No dia 29 de outubro, em Ecoporanga, a Polícia Militar teve que interromper ato eleitoral da vice de Casagrande, que se aglomerou durante uma caminhada eleitoral.
O resultado de tanta despreocupação com o coronavírus em meio à corrida eleitoral é um dos fatores que tem contribuído para o aumento do número de novos casos da doença, levando a um aumento da ocupação dos leitos hospitalares e dificultando a superação dessa primeira onda de contágios. Dados do próprio governo estadual indicam que a demanda por exames de detecção da Covid-19 é maior do que no estágio mais crítico do coronavírus no Espírito Santo.
Candidatos e autoridades devem dar o exemplo à população. Afinal, nada impedia uma campanha virtual (na verdade, pelo contrário). A cada dois anos há eleição, já as vidas perdidas, são irrecuperáveis. Para convencer a população de que serão bons gestores ou parlamentares, os políticos deveriam, em primeiro lugar, demonstrar responsabilidade com a vida.

Caio Neri

É graduado em Direito pela Ufes e assessor jurídico do Ministério Público Federal (MPF). Questões de cidadania e sociedade têm destaque neste espaco.

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