O maior medo de muitos nesta pandemia, além da preocupação de adoecer, talvez seja a de que algum ente querido seja infectado e não haja a possibilidade de um último abraço. Aliás, provavelmente, essa seja a face mais dolorosa do coronavírus: perder alguém querido, à distância, sem a chance de se despedir. Sepultar um familiar ou um amigo sem poder realizar um velório digno torna o luto mais duro, complexo e prolongado.
Ninguém espera que o vírus atinja sua família. Entretanto, a despeito disso, muitos seguiram e ainda seguem à risca as normas de segurança sanitária (como o uso de máscara, o isolamento social, a correta higienização das mãos e de tudo que entra em casa). Porém, ainda assim, infelizmente, muitas famílias foram injustamente golpeadas pela perda de alguém querido para esse vírus, ainda incompreendido em sua totalidade e sem cura comprovada. Tudo isso nos mostra e reafirma a importância de que todos, enquanto integrantes de uma comunidade que vive em sociedade, colaborem para evitar que o vírus se propague.
Eventualmente, se a pandemia fosse encarada, desde o início, com mais seriedade, tanto por governos quanto pela sociedade em geral, a chance de se contaminar em atividades fundamentais (como idas ao supermercado, ao médico ou à farmácia) diminuiria significativamente, poupando milhares de vidas e evitando que um sem-número de pessoas vivenciasse a dor do luto. Quantas vidas foram sacrificadas para evitar o fechamento de atividades não essenciais ou para forçar a reabertura precipitada dos setores econômicos não fundamentais?
As milhares de vidas interrompidas pelo coronavírus não podem ter sido em vão, não são apenas números, são histórias e caminhadas singulares. É preciso respeito à dor dos enlutados e empatia para que outros não padeçam do mesmo sofrimento. Mas, lamentavelmente, parece que o lucro daqueles que já têm muita riqueza importa mais que a vida, sobretudo, a vida dos mais vulneráveis, que são obrigados a enfrentar ônibus lotados e a falta de humanidade daqueles que se recusam a fazer o mínimo para enfrentar o vírus, como evitar saídas e encontros desnecessários ou a adoção de outras medidas de mitigação do risco de contágio.
No último sábado, o empresário e apresentador Marcelo de Carvalho, sócio da Rede TV e claro defensor do populismo bolsonarista, afirmou que a pandemia não passa de “mi mi mi” e que a economia não pode parar. Não podemos aceitar com naturalidade a falta de humanidade. O luto e a dor pela perda de alguém querido não é “mi mi mi”, são sentimentos legítimos e inatos à condição humana. Porém, para quem padece de falta crônica de empatia, a dor do outro não importa, apenas o benefício próprio, ainda que à custa do sofrimento e das mazelas alheias.
Nos quadros mais graves da Covid-19, o paciente fica em total isolamento, sem a companhia ou a visita da família ou amigos num momento tão difícil e angustiante. Ficam apenas com o suporte dos profissionais da saúde enquanto lutam pela vida. Entre paciente e familiares, muitas vezes, não há sequer a possibilidade de manter contato, muito menos a chance de realizar um breve encontro naqueles que podem ser os últimos momentos do paciente em vida.
Quando a Itália atingia seu pico de mortes diárias pelo coronavírus, muitos brasileiros se comoviam, e com razão. Entretanto, há muito tempo morrem mais de mil brasileiros por dia em decorrência do coronavírus e parece não haver a mesma compaixão em relação aos nossos compatriotas, como se as mortes de aqui fossem menos pesarosas.
Não podemos esperar o sofrimento do coronavírus bater à porta de nossas casas e de nossas famílias para tomar consciência de nossa responsabilidade social e moral de seguir as normas de segurança sanitária ou para compadecer a dor e o luto de nossos semelhantes.
Se houver a comprovação de algum remédio ou vacina eficaz contra o coronavírus, por mais esperado e louvável que seja, infelizmente, chegará tarde para milhares de cidadãos, inumeráveis. Às famílias e pessoas enlutadas pelo coronavírus, minha solidariedade, compartilhamos a mesma dor.