Um dos fenômenos da era contemporânea é a alteração da nossa percepção do tempo. Não é anormal ouvir comentários sobre como o tempo tem passado mais rápido. Há também relatos de pessoas que dizem que momentos bons passam muito rapidamente e que as dores parecem durar para sempre.
A quarentena (isolamento/afastamento social em nossos lares), que foi a nós imposta pela pandemia de Covid-19, aprofunda a sensação de que o transcurso do tempo na contemporaneidade por vezes é muito rápido, muito mais rápido do que antigamente. Acredito que todos estamos sofrendo, das mais variadas formas, com a mudança da rotina diária e com o novo normal que nos está sendo imposto pelas circunstâncias fáticas do tempo presente.
Entender o tempo não é fácil, tentar entender como ele transcorre pode dar um nó na cabeça. De fato, a ciência demonstra que a percepção do tempo hoje em dia é diferente da percepção que tinham os nossos antepassados ou as gerações mais velhas. A velocidade com que a informação circula atualmente contribui, e muito, para vivermos num ritmo mais rápido do que os antigos viviam, além de outros fatores que influenciam essa percepção.
Mas há um problema moral na questão do transcurso do tempo: quando o tempo passa mais rápido (falando de forma leiga, me perdoem aqui os físicos!), as pessoas ficam mais preocupadas com o seu próprio umbigo. Ou seja, o ser humano, egoísta por natureza, fica mais egoísta, mais centrado em si mesmo e deixa de perceber a dor dos outros.
Se eu tenho pouco tempo, obviamente (essa é a sensação mais usual), eu devo me preocupar mais comigo mesmo, com o meu bem-estar, com o meu sustento; exceção, somente, é feita ao bem-estar dos meus familiares mais próximos. Até mesmo o alcance numérico do conceito de família se reduz na contemporaneidade, passamos a falar em núcleo familiar, composto por aqueles mais próximos com os quais nos preocupamos mais detidamente dentro do pouco espaço de tempo que possuímos.
Ora, se a sensação de transcurso de tempo realmente se altera no mundo atual, como dar conta de reconhecer a dor do outro em meio a tantas outras coisas que tenho que fazer para mim mesma?
Pronto! Agora chegamos à questão que me levou a escrever esta coluna hoje: é preciso reconhecer a dor do outro mesmo quando você também está sofrendo. Eu não posso reconhecer o outro (e as suas dores) somente quando me sobra tempo e energia para isso, pois invariavelmente, na contemporaneidade, nenhum de nós vai ter tempo de sobra. Essa questão compõe o que chamo de o valor moral do tempo, o qual passa, ainda, ao largo dos estudos da Física sobre o conceito de espaço-tempo (Raumzeit ou Raum-Zeit-Kontinuum) de Albert Einstein.
Estamos vivendo uma época de mudanças, iniciamos um novo normal, e o tempo neste novo normal certamente continuará passando mais rapidamente; como, então, dar conta de sermos menos egoístas no nosso dia a dia e reconhecermos o outro, a sua dor, os seus problemas, e ao mesmo tempo, darmos conta de nós mesmos, das nossas idiossincrasias, nossos temores, nossas dores?
Se a ciência contemporânea nos diz que o tempo transcorre mais rápido, ou que a percepção do ser humano é a de que ele transcorre mais rápido do que antigamente, nós temos de criar meios de reconhecer o outro mesmo “apesar” de termos menos tempo. Isso certamente é a maior tarefa da humanidade: ao invés de invisibilizar a dor do outro, devemos parar para pensar no que pode ser feito, como se pode ajudar independentemente do tempo. Enfim, que o tempo não nos escravize, nem nos torne menos humanos.