A cantora gospel Cassiane lançou na sexta-feira da semana passada (17/07) um videoclipe que causou grande mal-estar até mesmo entre fiéis e pastores evangélicos, que não se conformaram com a romantização da violência física e patrimonial contra a mulher trazida pelo vídeo.
Tamanha foi a pressão dentro da própria comunidade evangélica, que a cantora relançou o clipe nesta segunda-feira (20/07), dessa vez com um final diferente, no qual a mulher liga para o serviço Ligue 180, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, e o homem agressor é preso por um policial.
O Brasil vem passando por uma transição no número de praticantes das duas grandes religiões cristãs aqui praticadas, desde 2010. Se de acordo com o censo do IBGE de 2010 a maioria dos cristãos brasileiros eram católicos, a estimativa contida no novo estudo do demógrafo José Eustáquio Alves, professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, publicado no início de 2020, demonstra que até 2032 os evangélicos já serão a maioria dos cristãos no país.
Esse aumento no número de cristãos evangélicos no país já se reflete no dia a dia da nossa sociedade, como se viu nas últimas eleições gerais, quando o voto evangélico passou a ser cobiçado por grande parcela de candidatos. As demandas da população evangélica, portanto, são muito relevantes para entendermos a lógica que determina os relacionamentos sociais e familiares no Brasil hoje em dia.
É por esse motivo que o combate à violência contra as mulheres nos ambientes domésticos, uma das maiores causas de mortes de mulheres no país, não pode mais ser só deixado aos cuidados dos movimentos feministas e da academia. Chegou o momento em que precisamos trabalhar conjuntamente com as agremiações evangélicas, incluindo todas as suas matizes, para que esse grande percentual de mulheres brasileiras sejam também protegidas pelas políticas públicas para mulheres, em especial, aquelas pautadas na Lei Maria da Penha.
Isso é importante, justamente, pelo que se viu na primeira versão do videoclipe da cantora Cassiane, o de sexta-feira (dia 17), e não o de segunda-feira (dia 20). No primeiro videoclipe, a mulher é instada a perdoar o homem agressor, que age com violência física e patrimonial (roubando o dinheiro das contas da casa para beber) em nome de uma ética cristã de perdão incondicionado.
A mulher é colocada na posição de oração, de irmã que pede a Deus para suportar as dores causadas pelo homem, em nome do Evangelho, ao passo que do homem é esperado somente que ele mude a sua forma de agir e passe a respeitar a mulher por meio de uma intervenção divina e não de uma mudança específica e convincente que reconheça o valor de igualdade que protege a mulher na nossa sociedade.
Infelizmente, a realidade fática brasileira demonstra que a oração, somente, não tem salvo a vida de milhares de mulheres que são agredidas, violentadas e assassinadas por maridos, namorados, companheiros e até familiares mais próximos. O que irá salvar vidas de mulheres é o agir público, principalmente das igrejas protestantes, de esclarecer e informar sobre a necessidade de que a mulher denuncie o agressor, mesmo que o perdoe no seu íntimo relacionamento com Deus. Isso somente será possível se a teologia evangélica colocar a mulher em pé de igualdade com os homens, reconhecendo ser ela titular dos mesmos direitos que os homens.
O perdão cristão não pode estar atrelado a um dever de sofrer e morrer unilateral, o dever da mulher para com os homens. E isso ficou demonstrado pelo movimento de pastores e fiéis inconformados, que se uniram para que o videoclipe da cantora Cassiane fosse alterado. Nenhuma mulher é obrigada a sofrer em nome de uma religião, certamente essa não é a vontade de Deus.