O ataque à união de mulheres em busca por cidadania, participação política e direitos humanos é uma prática corriqueira, infelizmente, e segue procedimentos muito parecidos ao longo da nossa história. Somos chamadas de loucas, histéricas, bruxas, além da tentativa de silenciamento e apagamento.
Em 2018, durante a campanha eleitoral para a presidência da República, foi criado um grupo privado no Facebook denominado “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”, com aproximadamente duas milhões de integrantes. Segundo a descrição do grupo, o mesmo foi formado para lutar “contra o avanço e fortalecimento do machismo, misoginia e outros tipos de preconceitos representados pelo candidato Jair Bolsonaro e seus eleitores”.
Ao tomar grandes proporções, houve invasão no grupo, com ameaças a moderadoras de que teriam seus dados pessoais expostos caso continuassem com o movimento. Além disso, o grupo foi renomeado para “Mulheres com Bolsonaro”.
Bolsonaro foi eleito. Estamos em meio a uma pandemia. Estamos sem um plano nacional para que as vidas dos brasileiros e das brasileiras sejam salvas. E, diante do necessário distanciamento social, muitas das atividades estão sendo realizadas por meio de chamadas de vídeo. Apareceu, então, mais um campo fértil para que o ódio seja disseminado.
Dias atrás, o evento “Que tipo de práticas antirracistas pode ser adotadas pela sociedade civil organizada?”, com a participação de maioria de mulheres, foi invadido. Era um evento virtual, originalmente de Florianópolis, em que 95% das organizadoras são mulheres – cenário bem parecido ao grupo invadido em 2018 no Facebook. Pelos invasores, foram apresentadas para as participantes imagens de suástica, mensagens de mortes às mulheres, cabeças sendo cortadas e homens se masturbando.
Há relatos de outras invasões em eventos desse tipo, com apresentação de imagens de regimes totalitários e pornografia. E a pergunta que fica é: qual o objetivo?
Os eventos invadidos neste mês e o grupo do Facebook à época da campanha de 2018 têm situações parecidas e propósitos próximos: debater enfrentamentos ao autoritarismo, ao racismo e às práticas desumanas da nossa sociedade. E essa movimentação incomoda muito os Ur-Fascistas ou fascistas eternos.
Na obra “O Fascismo Eterno”, Umberto Eco realça que “O Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais”, o que implica em “desdém pelas mulheres”. O retrato das agressões de 2018 e os de agora está bem delimitado nesse sentido.
Os fascistas eternos, os autoritários, todos aqueles que não conseguem lidar com as possibilidades de diferenças existentes em uma democracia, se valem, na maioria das vezes, de ataques sexuais e de menosprezo às mulheres. É como se atestassem o que sempre soubemos e continuaremos a reverberar: parafraseando Angela Davis, quando as mulheres se movimentam, toda a sociedade se movimenta junto.