Desde o começo deste ano, temos visto aqui no Espírito Santo, em especial na Região Metropolitana, diversos casos de agressão contra pessoas vivendo em situação de rua. Isso nos faz lembrar o extermínio de crianças e jovens que marcou o Brasil na década de 1980, quando se viu aqui uma das piores atrocidades contra os direitos humanos.
O desembargador Umberto Guaspari Sudbrack, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, tem um artigo muito importante sobre o tema do extermínio de menores, escrito em 2004, no qual ele mostra que a violência contra pessoas em situação de vulnerabilidade vem de muitos anos, tendo começado com a violência contra pessoas escravizadas, passando pela violência durante o século XX, no início do século contra comunistas, depois contra todos os opositores dos sistemas de governos ditatoriais na Era Vargas e durante a Ditadura Militar, a partir de 1964.
Essa cultura de violência contra a população mais vulnerável tem seu ápice com o extermínio dos “meninos de rua” durante a década de 1980. As crianças e jovens eram assassinados porque incomodavam aqueles que circulavam pelas grandes cidades do país, a sua presença não pertencia à beleza imaginada para a arquitetura urbana desejada por aqueles que construíam a imagem do Brasil “grande e potente” aqui e no exterior à época da Ditadura Militar.
O país do futuro não aceitaria crianças dormindo nas ruas, sem o que comer, o que usar para se aquecer, sem família, sem futuro.
Parece-me que este mesmo movimento de incômodo com o que não faz parte da estética das cidades renasce novamente nesta década no Brasil e, aqui entre nós, no Espírito Santo também. O olhar daquele que vê pessoas em situação de rua dormindo nos pontos mais belos das cidades da Região Metropolitana do Estado incomoda-se com isso, não por solidariedade ou compaixão, mas por mera estética, pois o “feio”, o “sujo”, polui o seu campo de visão.
Por muito tempo achamos que a questão das pessoas em situação de rua no país estaria invisibilizada pelo conforto que o “não enxergar” garante àqueles que vivem em situação privilegiada de acesso à moradia e aos serviços essenciais como os de saúde, de educação e alimentação na nossa sociedade.
Porém, o que os novos atos de extermínio e violência contra as pessoas vivendo em situação de rua demonstram é que a visão da pobreza, da sujeira e do feio passou a incomodar aquele que está em uma situação privilegiada de acesso à direitos e bens. O valor da vida humana deixou de ser importante, pois nem mesmo o estar ali nas calçadas e praças públicas é tolerado, nem mesmo o existir é aceito.
Vivíamos, até aqui, um momento em que as calçadas eram cercadas, estacionamento fechados com correntes, portões instalados nas entradas de prédios, marquises e toldos que continham dispositivos para derramar água em cima das pessoas em situação de rua (o que por si só era inaceitável); mas o que vemos agora é pior, muito pior.
Se antes pretendia-se afastar, agora o que é feito em meio à pandemia de Covid-19 é desumano, simplesmente se exclui a vida que não combina com a paisagem. Com a vida que está onde não deveria estar, com a vida que não vale a pena se deixar viver.