Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Violência

Extermínio de moradores de rua exclui quem não combina com a paisagem

A cultura de violência contra a população mais vulnerável tem seu ápice com o extermínio dos “meninos de rua” durante a década de 1980. Crianças e jovens eram assassinados porque incomodavam os que circulavam pelas grandes cidades

Publicado em 29 de Julho de 2020 às 05:00

Públicado em 

29 jul 2020 às 05:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Religiosos fazem ato ecumênico em memória ao morador em situação de rua queimado vivo
Religiosos fazem ato ecumênico em memória ao morador em situação de rua queimado vivo em Vitória este mês Crédito: Lorraine Boldrini/ Divulgação
Desde o começo deste ano, temos visto aqui no Espírito Santo, em especial na Região Metropolitana, diversos casos de agressão contra pessoas vivendo em situação de rua. Isso nos faz lembrar o extermínio de crianças e jovens que marcou o Brasil na década de 1980, quando se viu aqui uma das piores atrocidades contra os direitos humanos.
O desembargador Umberto Guaspari Sudbrack, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, tem um artigo muito importante sobre o tema do extermínio de menores, escrito em 2004, no qual ele mostra que a violência contra pessoas em situação de vulnerabilidade vem de muitos anos, tendo começado com a violência contra pessoas escravizadas, passando pela violência durante o século XX, no início do século contra comunistas, depois contra todos os opositores dos sistemas de governos ditatoriais na Era Vargas e durante a Ditadura Militar, a partir de 1964.
Essa cultura de violência contra a população mais vulnerável tem seu ápice com o extermínio dos “meninos de rua” durante a década de 1980. As crianças e jovens eram assassinados porque incomodavam aqueles que circulavam pelas grandes cidades do país, a sua presença não pertencia à beleza imaginada para a arquitetura urbana desejada por aqueles que construíam a imagem do Brasil “grande e potente” aqui e no exterior à época da Ditadura Militar.
O país do futuro não aceitaria crianças dormindo nas ruas, sem o que comer, o que usar para se aquecer, sem família, sem futuro.
Parece-me que este mesmo movimento de incômodo com o que não faz parte da estética das cidades renasce novamente nesta década no Brasil e, aqui entre nós, no Espírito Santo também. O olhar daquele que vê pessoas em situação de rua dormindo nos pontos mais belos das cidades da Região Metropolitana do Estado incomoda-se com isso, não por solidariedade ou compaixão, mas por mera estética, pois o “feio”, o “sujo”, polui o seu campo de visão.
Por muito tempo achamos que a questão das pessoas em situação de rua no país estaria invisibilizada pelo conforto que o “não enxergar” garante àqueles que vivem em situação privilegiada de acesso à moradia e aos serviços essenciais como os de saúde, de educação e alimentação na nossa sociedade.
Porém, o que os novos atos de extermínio e violência contra as pessoas vivendo em situação de rua demonstram é que a visão da pobreza, da sujeira e do feio passou a incomodar aquele que está em uma situação privilegiada de acesso à direitos e bens. O valor da vida humana deixou de ser importante, pois nem mesmo o estar ali nas calçadas e praças públicas é tolerado, nem mesmo o existir é aceito.
Vivíamos, até aqui, um momento em que as calçadas eram cercadas, estacionamento fechados com correntes, portões instalados nas entradas de prédios, marquises e toldos que continham dispositivos para derramar água em cima das pessoas em situação de rua (o que por si só era inaceitável); mas o que vemos agora é pior, muito pior.
Se antes pretendia-se afastar, agora o que é feito em meio à pandemia de Covid-19 é desumano, simplesmente se exclui a vida que não combina com a paisagem. Com a vida que está onde não deveria estar, com a vida que não vale a pena se deixar viver.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

O rascunho da canção foi encontrado pela irmã de Dinho; 30 anos depois, a música foi lançada, inspirada no futebol
Música inédita de Dinho é relançada 30 anos após a morte dos Mamonas Assassinas
Imagem de destaque
Trump diz que não está satisfeito com negociações com o Irã
Jardel Sipriano Caetano, nasceu em São Mateus
Capixaba morre atingido em ataque de drone na Guerra da Ucrânia

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados