Nestes últimos dias, estava assistindo à série "Years and Years" (Anos e Anos), uma coprodução da BBC com a HBO, e fiquei me perguntando como será quando tudo que estamos prevendo acontecer? Imagine Trump sendo reeleito infinitamente, assim como Vladmir Putin, os Estados Unidos tornando-se o grande inimigo da sociedade mundial? De repente, os EUA lançam um míssil nuclear sobre uma ilha artificial chinesa e bum... será que estaremos todos acabados?
A série é do roteirista britânico Russell T. Davies, que nos apresenta um mundo distópico onde tudo sobre o que conversamos, debatemos, enfim, tememos que de mal aconteça para a humanidade e o planeta simplesmente acontece. A cada episódio, os anos avançam, a série cobre o período de 2019 a 2034, tudo acontece e as pessoas continuam vivendo como se nada estivesse acontecendo: paradoxal!
Sim, a série propõe uma realidade distópica, exagera bastante etc. e tal, mas e se tudo realmente acontecer de uma forma ainda mais exacerbada do que estamos prevendo? Se os cientistas não encontrarem uma vacina para a Covid-19, se os Estados Unidos entrarem em guerra nuclear contra a China, se as calotas polares derretessem completamente, se a Floresta Amazônica fosse pavimentada, se Bolsonaro se tornasse nosso eterno presidente-ditador?
Para uma coisa com certeza vale a série – e as distopias em geral – para pensarmos no “E se...?” Essa perguntinha incômoda, que muitos terapeutas e coachs insistem em nos fazer prometer nunca mais fazê-la a nós mesmos, merece, sim, ser feita em alguns momentos da vida e, talvez, este seja um desses momentos.
Assim, queridas leitoras e leitores, sendo o “E se...?” um instrumento facilitador da reflexão individual, usemos a pergunta para refletir um pouquinho, aproveitar o silenciamento do dia a dia causado pela necessidade de distanciamento social durante a pandemia de Covid-19, para nos perguntarmos coisas simples do tipo: E se eu reciclasse o meu lixo? E se eu não fosse a praia durante a pandemia? E seu eu fizesse compra para os meus vizinhos idosos para que eles não tenham que sair? E seu eu desse bom dia para o porteiro do meu prédio?
Sim, esse pequenos “E se...?” da luta diária da vida cotidiana são dignos de serem feitos mas, na verdade, o “E se...?” que merecer ser trazido à tona de vez em quando é o mais doloroso de todos: “E se eu estiver(sse) errado(a)?”.
A capacidade de autorreflexão da pessoa humana, segundo o filósofo Immanuel Kant (no texto “O que é esclarecimento?”), é o marcador da passagem da inocência para a maturidade da razão. Aquele que se contenta com explicações dadas, que não se autoquestiona, que aceita tudo sem esclarecimento e justificativas não atinge a maturidade emancipatória (ou o esclarecimento, do alemão Aufklärung), que lhe permita avançar por si mesmo e se autodeterminar. Do contrário, o ser humano é heterodeterminado, vira massa de manobra acrítica na sociedade.
Years and Years nos faz refletir sobre um futuro que não queremos que aconteça, mas que para evitá-lo não fazemos nada (paradoxo!). Ao mesmo tempo que sabemos que estamos enfrentando diversas crises importantes no planeta, relaxamos e deixamos de lado as questões mais críticas, para nos preocupar com coisas banais do dia a dia. E isso, justamente, porque o esclarecimento sugerido por Kant é doloroso, da mesma forma que responder à pergunta “E se...?” o é.
Mas como o tempo não para, parece ter chegado a hora de amadurecer se fazer esta pergunta: E se eu estive errado até agora, o que eu devo fazer para construir um mundo melhor para as próximas gerações?