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Debate

Quais estátuas e monumentos queremos que sejam derrubados no ES?

A revisão histórica não é um mero capricho de intelectuais, é uma ato importante para fazer as pazes com um passado cruel, onde o valor da vida humana não era considerado importante

Públicado em 

08 jul 2020 às 05:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Grupo de manifesantes em Bristol, no Reino Unido, derrubou, durante um protesto antirracismo neste domingo (7)
Grupo de manifestantes em Bristol, no Reino Unido, derrubou estátua durante protesto antirracismo Crédito: Mohiudin Malik/Reuters/Folhapress
Nestes últimos dias, duas situações fáticas vêm tomando conta do debate internacional. A primeira é a questão de derrubar ou não estátuas e monumentos considerados representação de uma cultura racista em países da Europa e nos Estados Unidos. A segunda diz respeito ao possível último processo judicial contra um soldado da SS, durante o período nazista na Alemanha. O que as duas situações têm em comum e o que elas importam para o debate brasileiro atual, vamos discutir aqui hoje.
Na Europa, parece não haver muita controvérsia sobre a necessidade de se desapegar de estátuas e monumentos históricos que representam um período escravagista e colonialista que não faz mais sentido hoje em dia. Em Bristol, no Reino Unido, no dia 7 de junho, num protesto antirracista, manifestantes derrubaram a estátua de um traficante de escravo, Edward Colston. Na Bélgica, também pelo mesmo motivo, discute-se a derrubada da estátua do Rei Leopoldo 2, num parque próximo à capital Bruxelas.
Nos Estados Unidos, no sábado passado, dia 5 de julho, em Baltimore, a estátua de Cristóvão Colombo foi levada a baixo por manifestantes. Agora, debate-se por lá, se deverá ou não ser retirada a estátua de Abraham Lincoln ao lado de um escavo colocado numa posição inferior, ao seus pés, na cidade de Boston. E, ainda, outro ponto polêmico tem sido a permissão ou não de uso em eventos esportivos da bandeira confederada, tida por muitos como representação do sul escravagista na Guerra Civil norte-americana.
Esses movimento representam na contemporaneidade a revisão da história pelos cidadãos europeus e norte-americanos, em especial em razão dos efeitos malignos que as práticas escravagistas e colonialistas causaram em suas sociedades.
Da mesma forma, o julgamento de Bruno D., vigia da SS no Campo de Concentração Stutthoff, perto de Danzig, na Polônia, só acontece hoje por conta de um movimento para a revisão histórica que aconteceu na Alemanha entre 1986/1987, chamado de Historikerstreit.
Julgamentos judiciais e julgamentos sociais são importantes para o debate democrático na atualidade, não se pode mais fugir deles. Se na Alemanha é permitido o julgamento por crimes cometidos na era nazista, por não haver prescrição que impeça o julgamento judicial, é preciso encontrar meios de concluir o relacionamento com um passado desumano por outros meios políticos e democráticos em países que reconhecem a prescrição da escravização do povo negro e dos povos indígenas brasileiros.
Se a simples derrubada de estátuas durante um protesto é correto ou não, deve ser um fato analisado separadamente. Mas a derrubada consentida e deliberada de coletivamente de estátuas que representam um passado genocida, deve ser sim defendida e praticada.
Aqui no Brasil já está em curso o debate sobre a derrubada da estátua do bandeirante Borba Gato na Avenida Santo Amaro, na cidade de São Paulo. Borba Gato, à época (em 1960) da instalação da estátua cultuado por ser caçador de indígenas para escraviza-los, não pode mais ser tolerado na paisagem urbana de um cidade tão grande e tão cosmopolita como a São Paulo de hoje em dia, onde vivem milhares de pessoas das mais diversas etnias e origens.
A revisão histórica não é um mero capricho de intelectuais, é uma ato importante para fazer as pazes com um passado cruel, onde o valor da vida humana não era considerado importante. Seres humanos foram sequestrados, escravizados, dizimados, vendidos, torturados, isso não é trivial! Que esse debate chegue ao Brasil e ao Espírito Santo muito brevemente!
E aí? Que tal começarmos a pensar nas estátuas e nos monumentos que queremos que sejam derrubados? Envie-me um e-mail com as suas sugestões ou comentem aqui.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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