Nestes últimos dias, duas situações fáticas vêm tomando conta do debate internacional. A primeira é a questão de derrubar ou não estátuas e monumentos considerados representação de uma cultura racista em países da Europa e nos Estados Unidos. A segunda diz respeito ao possível último processo judicial contra um soldado da SS, durante o período nazista na Alemanha. O que as duas situações têm em comum e o que elas importam para o debate brasileiro atual, vamos discutir aqui hoje.
Na Europa, parece não haver muita controvérsia sobre a necessidade de se desapegar de estátuas e monumentos históricos que representam um período escravagista e colonialista que não faz mais sentido hoje em dia. Em Bristol, no Reino Unido, no dia 7 de junho, num protesto antirracista, manifestantes derrubaram a estátua de um traficante de escravo, Edward Colston. Na Bélgica, também pelo mesmo motivo, discute-se a derrubada da estátua do Rei Leopoldo 2, num parque próximo à capital Bruxelas.
Nos Estados Unidos, no sábado passado, dia 5 de julho, em Baltimore, a estátua de Cristóvão Colombo foi levada a baixo por manifestantes. Agora, debate-se por lá, se deverá ou não ser retirada a estátua de Abraham Lincoln ao lado de um escavo colocado numa posição inferior, ao seus pés, na cidade de Boston. E, ainda, outro ponto polêmico tem sido a permissão ou não de uso em eventos esportivos da bandeira confederada, tida por muitos como representação do sul escravagista na Guerra Civil norte-americana.
Esses movimento representam na contemporaneidade a revisão da história pelos cidadãos europeus e norte-americanos, em especial em razão dos efeitos malignos que as práticas escravagistas e colonialistas causaram em suas sociedades.
Da mesma forma, o julgamento de Bruno D., vigia da SS no Campo de Concentração Stutthoff, perto de Danzig, na Polônia, só acontece hoje por conta de um movimento para a revisão histórica que aconteceu na Alemanha entre 1986/1987, chamado de Historikerstreit.
Julgamentos judiciais e julgamentos sociais são importantes para o debate democrático na atualidade, não se pode mais fugir deles. Se na Alemanha é permitido o julgamento por crimes cometidos na era nazista, por não haver prescrição que impeça o julgamento judicial, é preciso encontrar meios de concluir o relacionamento com um passado desumano por outros meios políticos e democráticos em países que reconhecem a prescrição da escravização do povo negro e dos povos indígenas brasileiros.
Se a simples derrubada de estátuas durante um protesto é correto ou não, deve ser um fato analisado separadamente. Mas a derrubada consentida e deliberada de coletivamente de estátuas que representam um passado genocida, deve ser sim defendida e praticada.
Aqui no Brasil já está em curso o debate sobre a derrubada da estátua do bandeirante Borba Gato na Avenida Santo Amaro, na cidade de São Paulo. Borba Gato, à época (em 1960) da instalação da estátua cultuado por ser caçador de indígenas para escraviza-los, não pode mais ser tolerado na paisagem urbana de um cidade tão grande e tão cosmopolita como a São Paulo de hoje em dia, onde vivem milhares de pessoas das mais diversas etnias e origens.
A revisão histórica não é um mero capricho de intelectuais, é uma ato importante para fazer as pazes com um passado cruel, onde o valor da vida humana não era considerado importante. Seres humanos foram sequestrados, escravizados, dizimados, vendidos, torturados, isso não é trivial! Que esse debate chegue ao Brasil e ao Espírito Santo muito brevemente!
E aí? Que tal começarmos a pensar nas estátuas e nos monumentos que queremos que sejam derrubados? Envie-me um e-mail com as suas sugestões ou comentem aqui.