Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Preconceito estrutural

Krespinha, "E o vento levou" e o racismo que não se vê

O racismo não é um problema apenas dos negros. Entendemos que nós, brancos e misturados, precisamos nos posicionar a respeito dele, olhá-lo a partir da justiça, da empatia e da compreensão com o povo preto e seus ancestrais

Públicado em 

21 jun 2020 às 05:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Krespinha, da Bombril, foi retirada do catálogo de produtos da marca
Krespinha, da Bombril, foi retirada do catálogo de produtos da marca Crédito: Divulgação
Quase 5 milhões de escravos negros cruzaram o Oceano Atlântico entre 1500 e 1850. Passamos 388 dos 520 anos da nossa História escravizando oficialmente os que vinham da África e seus filhos. Nos outros 132 anos, vimos a prática abolida no papel seguir impregnando o pensamento, as instituições e as estruturas deste país abençoado por Deus e bonito por natureza, mas ainda extremamente preconceituoso.
Avançamos um pouco, mesmo que falte muito. Ampliamos o debate sobre a importância da diversidade nas organizações, embora haja um bocado a ser feito. Protestamos contra mortes movidas pela cor da pele. Vimos leis mudarem.
Muitos de nós reconhecemos que o racismo não é um problema apenas dos negros. Entendemos que nós, brancos e misturados, precisamos nos posicionar a respeito dele, olhá-lo a partir da justiça, da empatia e da compreensão com o povo preto e seus ancestrais.
Mesmo assim, a despeito de tudo, ainda hoje, somos obrigados a conviver com retrocessos inacreditáveis como as mortes de Miguel Santana da Silva, João Pedro Mattos, George Floyd e tantos outros. Mesmo assim, a despeito de tudo, ainda hoje, comentários e postagens racistas inundam o ambiente digital todos os dias.
Mesmo assim, a despeito de tudo, ainda hoje, somos acordados numa quarta-feira de 2020 com o relançamento de uma esponja para limpeza pesada que remete, jocosamente, ao cabelo crespo e à mulher negra.
Criticar a Bombril por trazer de volta ao mercado um produto dos anos 1950 sem levar em consideração seu racismo escancarado não é mimimi nem falta de empatia.
A esponja que “remove sujeiras e gorduras de um jeito rápido e eficaz, sem esforço”, conforme descrição no site oficial da marca (logo depois retirada do ar), é o passado esmurrando a porta para assombrar aqueles que ainda sofrem com a herança escravocrata e a desigualdade racial.
Felizmente, três ou quatro dias antes, demos um pequeno passo no sentido oposto. Depois de um contundente apelo publicado no jornal "Los Angeles Times" pelo diretor e roteirista do filme “12 Anos de Escravidão”, o clássico “E o Vento Levou” foi retirado temporariamente do catálogo da distribuidora Warner. Uma mensagem será colocada antes do filme, para explicar o cenário histórico em que ele foi feito e o contexto ali exibido.
“E o Vento Levou” relata com pompa e circunstância a escravidão no Sul dos Estados Unidos e a guerra travada para que ela fosse mantida. Um autêntico representante da era de ouro de Hollywood. Quatro horas de romance, aventura, tragédia, humor, frases antológicas, um ícone na trilha sonora. Dez vezes premiado no Oscar. E uma perspectiva racista, muito racista, em seu ponto de vista favorável à escravidão.
"Racismo estrutural é um conjunto de práticas históricas, culturais, políticas e institucionais que privilegiam um grupo racial e desfavorecem outro. De tão agarrado na cultura, na polícia, na política e na economia, há quem diga que ele nem existe"
Ana Laura Nahas - Articulista
Não custa lembrar: racismo estrutural é um conjunto de práticas históricas, culturais, políticas e institucionais que privilegiam um grupo racial e desfavorecem outro. De tão agarrado na cultura, na polícia, na política e na economia, há quem diga que ele nem existe. Mas ele está aqui, ali, em qualquer lugar, e se revela na ausência de negros em espaços de poder, de saber e de fazer.
O racismo estrutural tem relação direta com a escolha da Bombril e se encontra na raiz das mortes de Miguel, João Pedro, George Floyd e tantos outros. Ele está aqui, ali, em qualquer lugar, impregnando o pensamento, as instituições e as estruturas deste país abençoado por Deus e bonito por natureza, mas ainda extremamente preconceituoso.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Trufas para a Páscoa: 10 receitas irresistíveis para adoçar a data
Imagem de destaque
Baralho cigano: veja as previsões de abril de 2026 para os 12 signos
Imagem de destaque
Além do forró: Itaúnas estreia festival internacional de jazz e blues

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados