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Igualdade

Antirracismo é uma luta urgente e deve ser travada por todos

As manifestações emitem sinais evidentes de que foram ultrapassados todos os limites possíveis em um estágio civilizatório no qual a igualdade, pelo menos formalmente, está estabelecida nos países democráticos

Publicado em 08 de Junho de 2020 às 05:00

Públicado em 

08 jun 2020 às 05:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

População negra continua sendo alvo de racismo, e as consequências do preconceito são sentidas em diversas áreas
População negra continua sendo alvo de racismo, e as consequências do preconceito são sentidas em diversas áreas Crédito: VisualHunt
A morte de um homem negro, George Floyd, assassinado de maneira cruel, brutal, indiferente e insensível, pela polícia americana, desencadeando um grande movimento, não apenas nos EUA mas também em várias outras partes do mundo, notadamente na França, nos emite sinais evidentes de que foram ultrapassados todos os limites possíveis em um estágio civilizatório no qual a igualdade, pelo menos formalmente, está estabelecida nos países democráticos.
Aquilo que para muitos se manifesta como um fenômeno incômodo e assustador, com milhares de pessoas indo às ruas em plena pandemia, ateando fogo em prédios e entrando em confronto direto com a polícia, nos permitiu, mais uma vez, perceber o poder das ruas e da sociedade quando esta se manifesta de forma a lutar por seus direitos e a explicitar sua irresignação com a perpetuação da injustiça.
" O racismo está entranhado em nossa cultura de forma talvez mais perversa do que no próprio EUA. Ela é sutil e se manifesta pela falsa cordialidade e pelo não dito, de forma a ocultar o sentido e a verdadeira intencionalidade dos atos e dos dizeres racistas"
Elda Bussinguer - Articulista
A força do movimento se evidencia no apagamento das luzes da residência oficial do presidente dos EUA e na informação de que o homem mais poderoso do mundo, Donald Trump, teve que se esconder em um bunker na Casa Branca, conscientes estavam os responsáveis por sua defesa, da existência de riscos reais de invasão desse edifício que representa, em nosso imaginário, o centro de poder mundial.
Não é possível ficar como observadores indiferentes e distantes de um movimento que, apesar de aparentemente se dar fora da nossa realidade diz respeito a todos nós em todos os lugares do mundo. De fato, a explosão de revolta social não é apenas por George Floyd. Ele é um marco. O símbolo de uma realidade cruel que está capilarizada em todos os recantos do planeta.
O que aconteceu lá, acontece todos os dias no Brasil, nas diferentes esferas da vida nacional. Milhares de pessoas negras são assassinadas ou violentadas, descartadas das oportunidades e vulnerabilizadas em uma cultura baseada em um racismo tantas vezes escamoteado, tantas vezes explicito, negado como tentativa de manutenção da mesma condição que nos acompanha desde a escravidão negra e que se mostra tão favorável aos brancos.
Negros são mortos ou deixados morrer sob a desculpa falaciosa de que não há discriminação racial no país e pela deliberada naturalização de uma cultura que nega o racismo estrutural da sociedade brasileira, cujas consequências todos nós conhecemos e que estão evidenciados em estatísticas, nas manchetes da imprensa e nas redes sociais.
A segregação, a discriminação, a morte, a exclusão social e as violências em suas mais diversificadas formas de manifestação são sentidas na pele por pessoas negras, enquanto, indiferentes, muitos continuam a caminhar como se a questão não dissesse respeito à todos nós, seres humanos que compartilhamos o mesmo tempo histórico.
É preciso compreender que negar o racismo não é apenas uma estratégia racista poderosa e cruel. Ela é resultado de uma intencionalidade capitalista. Ela imobiliza e desqualifica qualquer tentativa de trazer ao debate um problema que está na estrutura da organização social brasileira.
O racismo está entranhado em nossa cultura de forma talvez mais perversa do que no próprio EUA. Ela é sutil e se manifesta pela falsa cordialidade e pelo não dito, de forma a ocultar o sentido e a verdadeira intencionalidade dos atos e dos dizeres racistas.
Ela se traveste na pseudo amizade entre as patroas e suas empregadas, preponderantemente negras, entre os amiguinhos negros do futebol mas que não são convidados para os aniversários nos belos apartamentos da classe média e rica, na aversão aos casamentos entre brancos e negros, ainda que os negros possam estar, eventualmente, em uma condição econômica e social privilegiada.
Esse histórico e poderoso movimento de luta contra o racismo estrutural que vigora lá, e também aqui, dificilmente aconteceria no Brasil da mesma forma que acontece lá. Negros americanos foram educados a assumir sua negritude como identidade a ser valorizada e não desprezada. Foram forjados nas escolas negras a entender a resistência e a luta como o único caminho para o alcance da igualdade.
O processo de deseducação e negação da identidade e da cultura negra no Brasil, fomentado por meio de políticas claramente defendidas, inclusive, por intelectuais em alguns momentos de nossa história, que levou tantos a buscarem um reconhecimento social por meio de mecanismos de embranquecimento, como cabelos alisados, modos contidos, musicalidade branca, e tantos outros artifícios, arquitetados e reproduzidos socialmente, de forma a manter “cada um no seu lugar”, tão conveniente aos brancos, precisa ser refletida e revertida, por meio de políticas públicas de reconhecimento.
É necessário e urgente que sejam conquistados espaços de reflexão e educação em uma prática libertadora que permita a todos, negros e brancos, viverem e amarem suas marcas identitárias sem terem que se submeter a uma cultura hegemônica branca.
O racismo é a expressão máxima de nossa miserável condição humana. Quando alguns se percebem melhores pela cor de sua pele é porque nosso processo civilizatório ainda se encontra em estágio bem inicial.
Quando o presidente da República e seus ministros, de forma acintosa, utilizando-se de violência simbólica, mas explícita, exibem “copos de leite” em suas apresentações públicas, em um claro e evidente sinal de defesa de supremacia dos corpos brancos, e nós não fazemos nada, aceitamos passivamente, é sinal de que ainda não chegamos no patamar civilizatório mínimo.
A indignação precisa ir para além do sentimento de dor e de revolta que tantas vezes nos invade. A irresignação precisa se manifestar como luta antirracista que reivindique de nossas instituições representativas que elas intervenham adotando medidas e políticas públicas de enfrentamento do racismo institucional e estrutural que nos faz uma sociedade tão desigual e injusta.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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