No máximo desde o programa "Roda Viva" com o professor Silvio Almeida, na semana passada, sabemos que há racismo estrutural no Brasil. E o pior, que ele vem sendo construído como projeto de poder da branquitude desde a fundação da nação brasileira, que se alicerça no trabalho escravo de povos africanos sequestrados de suas terras natais por traficantes brasileiros, portugueses e ingleses.
Tudo que se pode associar à cultura de matriz africana parece vir sendo estigmatizada como algo ruim pelos formadores de opinião no país, assim se deu com a capoeira no passado, agora se ataca o samba, o funk e as religiões. Mas o tema que gostaria de abordar hoje é o preconceito específico, que se revela por meio discriminação religiosa em relação às religiões de matriz africana no Brasil.
O preconceito, o racismo e a xenofobia invariavelmente se mostram também na forma de intolerância religiosa. Se formos analisar a perseguição aos judeus na Alemanha nazista, temos que um dos elementos que justificaram a dizimação do povo judeu foi justamente a prática de uma religião específica, diferente do cristianismo adotado pela maioria da população alemã de então. Da mesma forma, se olharmos a Alemanha de hoje, na contemporaneidade, há formas de perseguição e preconceito religioso em relação aos migrantes turcos que residem naquele país, justamente por praticarem a religião islâmica.
Se no início do século XIX a perseguição naquele país se dava em forma de genocídio em câmaras de gás, hoje em dia a perseguição se mostra por meio de atentados praticados contra migrantes, seus centros de promoção da cultura islâmica e os locais onde as comunidades se encontram.
Percebam que no centro do discurso preconceituoso e discriminatório está um viés muito nítido de intolerância religiosa. Essa, podemos dizer, é a mesma intolerância que observamos hoje em dia no Brasil: na medida que o número de cidadãos que se declaram evangélicos cristãos aumenta no país, aumenta o número de atentados praticados contra pessoas e locais de culto de religiões de matriz africana.
Observamos, infelizmente, que o aumento da liberdade religiosa de um determinado grupo religioso importa, em contraparte, no aumento da discriminação e preconceito em relação àqueles que praticam e seguem as religiões de matriz africana, em especial de eles são negros.
Sendo a religião uma das demonstrações culturais de um povo, temos que o exercício do direito de liberdade religiosa de forma positiva pela população negra no Brasil deve ser garantido como a própria expressão de existência (e resistência) deste povo no país.
Interessante, portanto, notarmos que no atual estágio de evolução da sociedade brasileira que, tendo superado anos de ditadura militar e repressão de expressões culturais e religiosas diversas, vê-se agora confrontado com um grupo de pessoas que insistem que para exercer a sua religião tem o direito de acusar, discriminar e inflamar preconceitos em relação às religiões de matriz africana praticadas no Brasil.
Observamos um discurso de ódio vindo de religiosos ligados às novas tradições religiosas evangélicas que insistem em associar às práticas religiosas de matriz africana ao atuar de uma entidade que chamam de diabo, demônio ou satanás. Essa entidade, na tradição cristã evangélica, estaria ligada à maldade, a tudo de ruim que acontece no mundo e aos seres humanos.
Percebem o preconceito? Nesse discurso de ódio, praticado pelas religiões evangélicas estabelecidas recentemente no Brasil, a prática religiosa do povo negro é associada ao maligno, a algo mal, ao causador de todo mal que vivemos. De modo que somente por meio a eliminação total dessa religião (e de seus seguidores, que são os negros) viveremos uma vida boa.
Observemos, assim, que esse é o mesmo discurso que determina que o jovem negro é “bandido”, que deve ser exterminado para que a vivamos em paz nas nossas cidades. Em outras palavras (que não são ditas com todas as letras): culpemos os negros por todo o mal que acontece na sociedade brasileira, enquanto se apaga da opinião pública que a verdadeira mazela da sociedade brasileira é justamente o racismo estrutural e a desigualdade social.