Na campanha eleitoral, Jair Bolsonaro dizia que ele seria a única alternativa para o Brasil “não se tornar uma Venezuela”, país que convive com um governo autoritário e enfrenta uma grave crise política, econômica e social, marcada por sério caos humanitário e desabastecimento de gêneros básicos.
Após eleito, reafirmando seu caráter autoritário e de desapreço à democracia, Bolsonaro vem adotando medidas compatíveis com aquelas tomadas por Hugo Chávez e Nicolás Maduro, pelos quais é aficionado: a incitação ao ódio e à violência contra adversários, o flerte com movimentos totalitários, o endossamento a manifestações antidemocráticas que pedem o fechamento dos demais Poderes, o loteamento de cargos públicos, o ataque sistemático à imprensa, a pensadores e à ciência.
" Enquanto o governo federal não se preocupar com a alta dos alimentos, a insegurança alimentar será agravada e as desigualdades sociais crescerão cada vez mais, diminuindo a qualidade de vida do brasileiro, sobretudo, daqueles que já não tinham muita qualidade de vida"
Se há algum tempo os venezuelanos sofrem com a tirania do Estado e têm enormes dificuldades no acesso à alimentação e a itens de higiene, em 2020, a dificuldade para comprar comida também se tornou uma triste realidade para os brasileiros. Se não bastasse o sofrimento com o coronavírus, que já ceifou a vida de quase 140 mil brasileiros, tornando o Brasil um exemplo negativo no combate à pandemia, desde o início do ano há altas muito expressivas na alimentação.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam o que os brasileiros já sabem quando precisam comprar comida: praticamente tudo aumentou. Em 2020, o arroz acumula alta de 20%, o feijão subiu 32,6%, isso sem contar o aumento do preço da abobrinha (46,8%), da cebola (50,4%) e do gás de cozinha (que fez com que muitos voltassem a ter que cozinhar em fogões à lenha), sem perspectiva de melhoras.
O acesso à alimentação sempre foi difícil para as camadas da população com menor renda. Antes, era comum que as altas de carnes e vegetais impedissem o brasileiro de colocar a “mistura” no prato de suas famílias. Hoje, principalmente os mais pobres, não conseguem comprar a “mistura” e está cada vez mais caro comprar o básico, o tradicional arroz e feijão, base da alimentação no país.
Há quem diga que os alimentos ficaram tão caros por conta do auxílio emergencial de R$ 600, que injetou recursos na economia. Porém, é preciso lembrar que inúmeras famílias brasileiras tiveram redução significativa em seus rendimentos, cresceu o número de desempregados e desalentados.
Por outro lado, pesou nessa inflação o aumento da demanda por gêneros alimentícios a nível mundial. Entretanto, ao que tudo indica, não faltou produção, sobrou lucro! Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra de 2020 já é 4,5% ou 11 milhões de toneladas superior à anterior.
Ao mesmo tempo em que as famílias enfrentam dificuldades para se alimentar, as empresas exportadoras e os grandes produtores agrícolas têm lucrado mais. Primeiro porque, com a desvalorização do real, a comida que poderia ser consumida aqui passou a ser cada vez mais exportada. Ou seja, lucraram exportando muito, e o que não foi exportado (a produção que sobrou), gerou lucro na venda ao consumidor interno. Ademais, lucraram com a redução de funcionários e com incentivos fiscais que os governos sempre concederam aos grandes.
A JBS, maior produtora mundial de proteína animal, entre abril e junho, apresentou lucro líquido recorde de R$ 3,4 bilhões, um aumento de 54,8% em comparação ao mesmo período do ano anterior. Outra empresa que lucrou muito foi a Camil. Especializada no arroz e feijão, no primeiro trimestre de 2020, a Camil teve lucro líquido de R$ 109,5 milhões, frente a R$ 49,8 milhões no mesmo período de 2019.
Portanto, ao contrário do que tenta convencer Paulo Guedes, não há como associar a explosão do preço dos alimentos a uma ilusória melhora de condição de vida dos mais pobres. Como houve melhora na condição de vida se hoje os mais pobres mal conseguem colocar arroz e feijão nos pratos de suas famílias?
Enquanto o governo federal não se preocupar com a alta dos alimentos, a insegurança alimentar será agravada e as desigualdades sociais crescerão cada vez mais, diminuindo a qualidade de vida do brasileiro, sobretudo, daqueles que já não tinham muita qualidade de vida.