Detecta-se no horizonte a expectativa, em escala global, de que os preços de alimentos entrarão num período de alta. Em grande parte por conta da pandemia que desarticulou cadeias de suprimento e vem fragilizando principalmente médias e pequenas empresas agrícolas. Há, ainda, quem vaticine, numa visão mais pessimista, a perspectiva de eclosão do que já se denomina de "bolha das commodities agrícolas". Mas de uma coisa podemos estar certos: não é o caso da crise do arroz pela qual passa o nosso país neste momento.
O que está acontecendo agora com o nosso arroz de cada dia tem muito ou tudo a ver com a ausência de ações planejadas, especialmente de natureza preventiva, do que com possíveis impactos da pandemia. Já havia o alerta de uma possível dificuldade dos produtores - e aqui estamos falando de produtores gaúchos -, em elevar a produção ao ponto de poder atender a demanda interna.
Portanto, havia uma previsibilidade concreta de escassez do produto. Fato que ensejaria, obviamente, a necessidade de implementação de medidas corretivas, com destaque para a abertura do mercado externo, com liberação de barreiras para importações.
Agora, “Inês é morta”. Não tendo sido tomadas ações preventivas, somente resta ao país atuar com ações corretivas. O problema, no entanto, é que no “açodamento” de se buscar soluções, corre-se o perigo de se perturbar o funcionamento não somente do mercado do arroz, mas também de outros potenciais mercados que certamente enfrentarão problemas semelhantes de oferta. E o que sobressai nesse cenário sempre é o temor em relação ao intervencionismo estatal.
O mundo está cheio de exemplos que mostram que o intervencionismo do Estado na economia nunca produziu resultados positivos para a população. No Brasil, temos um infindável número de episódios de fracasso. Basta retrocedermos, por exemplo, às inúmeras tentativas de controles de preços na década de 1980, com destaque para o Plano Cruzado. Foram emblemáticas as cenas de busca de bois nos pastos, inclusive com utilização de helicópteros. Sabemos o que aconteceu e não desejamos que aconteça novamente.
Não vamos agora tentar culpar produtores e redes de supermercados pelo que está acontecendo. Uma sinalização como a protagonizada pelo Ministério da Justiça, demandando explicações sobre a questão simplesmente pode contribuir para agravar ainda mais a situação. Sobretudo para os produtores, essa sinalização pode desestimular a própria produção.