“A tirania do mérito” é o novo livro do filósofo e professor de Harvard, Michael Sandel, publicado aqui no Brasil no final de setembro pela editora Civilização Brasileira e que foi lançado esta semana nos Estados Unidos. O livro, escrito ainda em 2019, sofreu o acréscimo de um prólogo antes da sua publicação para dar conta da total ausência de solidariedade que se vê naquele país e no planeta, de forma geral, durante a crise que vivemos causada pela Covid-19, o que para Sandel também é um dos efeitos negativos da meritocracia, como vamos ver aqui adiante.
Recém lançado, o livro já vem causando furor pelos seus argumentos e pretende, sim, incluir mais um elemento de debate às já bastante complexas (e conflituosas) eleições presidenciais norte-americanas. Apesar de em todas entrevistas de lançamento do livro o autor referir-se à pandemia que vivemos como o paradoxo moral da solidariedade contemporânea, o livro começa narrando o esquema criminoso descoberto em 2019, por meio do qual famílias ricas e famosas pagavam ao consultor William Singer somas enormes para que ele desse propinas a técnicos de esportes universitários, corretores do teste SAT (uma espécie de Enem norte-americano), e outras pessoas que pudessem facilitar a admissão de seus filhos em uma das universidades de elite dos EUA.
Sandel demonstra em seu livro que o discurso da meritocracia, termo inicialmente concebido em 1958 por Michael Young, um sociólogo britânico, atingiu um ponto que vem causando uma disputa ideológica terrível nos Estados Unidos e, por que não dizer, em todo mundo ocidental. A ideia de “yes we can” (slogan do candidato Barack Obama à presidência dos Estados Unidos, em 2008) - ou seja: sim, você pode realizar seus sonhos e ser tudo que quer, basta apenas se esforçar para isso! - além de conter uma falácia, vem causando separatismo social e ódio desenfreado por onde passa.
Por meio do exemplo do esquema do consultor William Singer, Sandel quer demonstrar que as pessoas passaram a aceitar fazer de tudo, mesmo que ilegal, para colocar seus filhos em uma posição que parece ser uma posição de destaque na sociedade em que vivemos, qual seja, a de ter ingressado (por méritos próprios) em uma das melhores universidades do mundo. O diploma universitário e tudo que se pode fazer depois de ter estudado em uma universidade como Harvard e Yale, por exemplo, é uma das maiores demonstrações de sucesso do mundo contemporâneo, o “self-made man” é aquele que alcança esse patamar.
O outro lado da moeda é o seguinte: o ódio que esse discurso foi causando na grande parte da população norte-americana (cerca de 2/3) que não tem diploma universitário. No livro “A Tirania do Mérito” Sandel chama atenção para o ódio calcado na sociedade americana justamente pelo discurso de que somente aqueles que conseguiram chegar nessa posição, de estudar e ter um diploma universitário, é que terão sucesso, o resto será deixado para trás, sem acesso ao debate público, à renda digna, à saúde e à educação de qualidade para seus filhos.
Essa virada meritocrática da sociedade americana, que segundo Sandel vem ocorrendo desde os anos 1980, quando mesmo os democratas aceitaram a globalização financeira e passaram a dar mais valor ao mérito do que o acesso aos bens públicos, pavimenta o caminho para a ascensão do atual presidente Donald Trump, que vem governando aquele país justamente para esses 2/3 da população norte-americana que ficou para trás na corrida meritocrática.
O que Michael Sandel pretende mostrar em seu livro, trazendo a questão para o debate eleitoral nos Estados Unidos, é o fato de que o sucesso aparente da meritocracia é, na verdade, uma grande mentira como mostra o esquema criminoso de William Singer, pois nem sempre os que têm sucesso na vida e atingiram posições de destaque – mesmo nas universidades de elite – alcançaram aquela posição pelo seu próprio esforço, e sim em razão da sua condição financeira, que pôde lhe proporcionar meios de pagar por aquele lugar ao sol.
O livro com certeza terá uma grande repercussão no Brasil, onde há alguns anos o trabalho de Michael Sandel vem sendo divulgado enormemente. Aqui, ele é tido como um intelectual popular e agradável de se ouvir, mas a verdade que ele entrega agora pode mesmo desagradar pessoas como Luciano Huck, que sempre faz questão de levar Sandel para o seu programa de auditório semanal. Vamos agora esperar as reações a essa crítica feita com muita destreza por Sandel, que certamente é um tapa na cara da elite brasileira também.