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Racismo

Violência policial contra os negros nos EUA: o que temos a ver com isso?

O que foi cultivado ao longo da história, tanto nos EUA quanto no Brasil, é a narrativa de que os negros são culpados pelas mais diversas mazelas da sociedade, até mesmo pelo seu próprio existir

Públicado em 

02 set 2020 às 05:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Data: 20/02/2020 - ES - Vitória - Manifestação contra as mortes de jovens negros na periferia. Eles saíram do bairro da Penha e seguiram até a Chefatura de Polícia Civil, na Reta da Penha - Editoria: Cidades - Foto: Fernando Madeira - GZ
Vários protestos têm acontecido no mundo após negros serem mortos por policiais brancos nos EUA Crédito: Fernando Madeira
Em meio a um processo eleitoral altamente competitivo, o atual presidente e candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, esteve na cidade de Kenosha, no Wisconsin, negando mais uma vez a gravidade do racismo estrutural que permeia as forças de segurança no país. Foi lá que, no domingo dia 23 de agosto, Jacob Blake, homem negro, foi baleado pelas costas por policiais brancos enquanto andava em direção ao seu carro onde seus filhos o esperavam.
Mais uma vez, o indizível acontece nos Estados Unidos, uma pessoa negra desarmada é atingida pela violência policial praticada por agentes brancos. Quantas vezes, perguntam-se norte-americanos (e pessoas consternadas do mundo inteiro!), vamos ver uma cena dessa novamente?
Desde o incidente em Kenosha, os Estados Unidos vêm assistindo a protestos contra a violência policial branca em diversos pontos do país, que contou inclusive com o apoio dos jogadores da NBA, a liga de basquete profissional dos EUA, suspendendo os playoffs na semana passada, o que nunca tinha acontecido antes.
O que nós aqui no Brasil temos em comum com os americanos do Norte é uma violência policial direcionada a um grupo específico: a população negra. Aqui, como lá, os negros são alvo de um protocolo de atuação seguido por agentes policiais que é direcionado por estereótipos cultivados há anos nos dois países de que um corpo negro deve ser controlado, vigiado, abordado e violentado pelo simples fato de ser negro.
O que foi cultivado ao longo da história, tanto lá como cá, é a narrativa de que os negros são culpados pelas mais diversas mazelas da sociedade, até mesmo pelo seu próprio existir. Essa suposta culpa, nos Estados Unidos, muito evidenciada com a utilização de filmes, propagandas e outras estratégias de retórica distorcida da realidade (hoje em dia chamadas de fake news), incute no cidadão branco uma superioridade social que lhe autoriza a agir de forma a humilhar e negar os direitos humanos da população negra, desprendendo-na do avanço civilizatório alcançado pelo corpo de direitos contidos na Constituição norte-americana de 1789.
No entanto, é paradoxal que em nenhum momento a elite branca norte-americana que se apoia nessa narrativa histórica sopese, em contrapartida, a culpa histórica pela escravização e sequestro dos negros africanos para seu território.
Aqui também, poucos são os que aceitam debater a culpa histórica pelos danos causados à população negra no Brasil, menos ainda se aceita que foi criada – assim como nos EUA – uma narrativa que impõe a culpa pelas mazelas sociais do Brasil ao povo negro escravizado e seus descendentes, isso com o objetivo de manter o poder nas mãos de uma elite então formada por comerciantes brancos, identificados como os “comerciantes de grosso trato” por João Luís Ribeiro Fragoso, no livro “Homens de grossa ventura: acumulação na praça mercantil do Rio de Janeiro – 1790-1830” (ed. Civilização Brasileira).
Ou seja, a questão sempre foi a manutenção do poder nas mãos de poucos brancos, no caso nas mãos dos comerciantes brancos que dominavam a empresa colonial brasileira à época.
Isso é perverso. Sim, muito perverso; mas não parece estar claro para a maioria dos brasileiros viventes, talvez por que tenham convivido por muitos anos com a narrativa falsificada pela história distorcida aprendida num sistema educacional tendencioso.
Todavia, historiadores contemporâneos têm mostrado, em especial os estudos de João Luís Ribeiro Fragoso e Manolo Florentino, no livro “O arcaísmo como projeto: mercado atlântico, sociedade agrária e elite mercantil em uma economia colonial tardia – Rio de Janeiro 1790-1840)” (ed. Civilização Brasileira), que essa narrativa falsa foi pensada e construída para a manutenção da exploração num modelo similar ao da escravatura do povo negro a fim de manter a estrutura social e econômica do país por muito tempo, mesmo após o fim da escravatura, que se impunha (os comerciantes de grosso trato sabiam) devido às pressões inglesas.
A Inglaterra no inicio do século XIX acabou com o comércio escravo, pois no modelo mercantilista em expansão ela perdia economicamente com o trabalho escravo e ganhava com a liberdade dos negros, almejando (talvez muito ingenuamente) o consumo, por todos os cidadãos do mundo, de bens produzidos e comerciados por ela.
E é aqui que está a chave da questão – bem espremida no curto espaço desta coluna – a liberdade para o consumo de bens traria consigo a liberdade política e a aquisição de direitos civis, o que passaria a incomodar e muito a população branca dos países onde a escravatura foi cultivada como modelo de negócio por muitos anos, tal como o Brasil e o Estados Unidos.
A concessão de direitos aos negros se torna um problema tão grande nos EUA que até hoje a negativa de direitos se faz presente, como no caso de Jacob Blake, George Floyde, onde sequer o direito ao devido processo legal, a presunção de inocência, ao seu dia na corte, são garantidos.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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