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Sociedade

Será que somos realmente independentes no Brasil?

A antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz deu uma aula sobre como não somos independentes em entrevista ao Roda Viva desta semana

Públicado em 

09 set 2020 às 05:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Antropóloga Lilia Schwarz
Antropóloga e historiadora, Lilia Schwarz foi entrevistada do Roda Viva desta segunda-feira (7) Crédito: Divulgaçã/Renato Parada
No programa Roda Viva da TV Cultura da segunda-feira, dia 7 de setembro, no dia do feriado em que se comemora a independência do Brasil, a professora Lilia Moritz Schwarcz, antropóloga, historiadora, professora da USP e de Princeton, deu uma aula sobre como não somos independentes, não temos motivos para comemorar esse 7 de setembro e vivemos num país racista, misógino e patrimonialista.
Sobre o primeiro ponto, precisamos entender que o Brasil foi o único país das Américas que não teve uma revolução de independência, não temos um herói como Martin e Bolívar como nossos vizinhos. Isso faz falta para a formação de uma nação livre. Aqui a independência foi um arranjo entre o Reino de Portugal e o herdeiro do próprio trono português, não nascia um país, não se construía uma nação.
Uma das consequências desse processo de independência fajuta foi a continuidade do pacto entre a igreja católica e a classe política que permitiu ao Brasil ser o último país do Ocidente a acabar com a escravidão.
Lilia Schwarcz ressaltou um outro ponto importante na entrevista para o programa: o arranjo entre a classe política e a igreja católica que permitiu a barbárie (escravização dos negros) por tanto tempo, em troca do direito de catequizar a nossa população de indígenas por anos a fio. Permitiu-se, assim, pari passu com a escravização dos negros a usurpação total da cultura indígena com a imposição de uma fé estranha.
Esse tipo de relação perniciosa entre igreja e Estado, pode-se dizer, é da mesma espécie de pacto simbiótico que temos no Brasil de Bolsonaro hoje em dia. Um se aproveita da posição do outro, silenciando sobre violações de direitos humanos de ambos os lados.
“A Democracia no Brasil”, como lembra Lilia, citando Sérgio Buarque de Holanda em "Raízes do Brasil", “foi sempre um lamentável mal-entendido.” A maioria da população não tem representatividade, apesar de os negros, as mulheres e o pobres serem a maioria numérica da população, são ainda chamados de minorias, pois não têm representatividade nas instituições democráticas do país: quantas mulheres temos no Congresso Nacional, quantos negros?
Além da simbiose entre igreja e política, do racismo estrutural, ainda temos a questão da banalização da violência no Brasil. Com a questão da violência, Lilia traz para o debate a Guerra do Paraguai, uma efeméride muito mal interpretada pela história tradicional, que a vende como a única guerra brasileira, apagando a história das tantas revoltas e de tantos Quilombos de resistência que tivemos neste país. A Guerra do Paraguai foi uma verdadeira carnificina do exército brasileiro, cuja herança só vem se aperfeiçoando nos últimos anos, tendo culminado com a missão comandada pelo Exército Brasileiro no Haiti (a MINUSTAH).
A violência está latente na sociedade brasileira desde sempre, porém a morte é pouquíssimo valorizada, a dor da perda do outro é negada, o direito ao luto apagado. Exatamente do mesmo modo que hoje se impede o luto pelos mortos pela Covid-19, pelos mortos pela polícia, pelos mortos nas favelas. É a total banalização da morte do preto, da mulher preta, do pobre, do jovem preto. A vida no Brasil só tem valor se for uma vida branca, da elite conservadora e religiosa.

BEYONCÉ E LUGAR DE FALA

Por fim, Lilia fala do debate em torno da coluna que ela publicou na Folha de São Paulo sobre o novo filme “Black is King” da cantora Beyoncé para o Canal Disney, na qual fez um crítica forte ao filme, dizendo que ele estaria retomando Hamlet (um texto que representa a branquitude europeia) e romantizando a África.
Muitos intelectuais negros criticaram o texto de Lilia, ela pediu desculpas, disse que se preocupa com a questão do lugar de fala e volta a Foucault, lembrando que ele foi o primeiro a pensar na questão do lugar de fala quando fez as entrevistas nos estabelecimentos penitenciários na França para ouvir a voz dos apenados sobre a história das prisões.
Como intelectual branco (em liberdade), Foucault transcreveu e publicou a fala dos apenados, contando assim a história das prisões. Temos aqui portanto a voz, o lugar de fala e o texto do intelectual branco. Para Lilia existe lugar de fala como direito e dentro de uma teoria do reconhecimento, mas não o monopólio de fala, como demonstra o trabalho de Foucault. Tema difícil e de extrema atualidade, que merece ser discutido, debatido e pensado. Não há conclusão fácil.
Assistam ao programa Roda Viva no canal da TV Cultura no Youtube.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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