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Cultura

Emicida e Chimamanda: a arte negra que ocupa espaços brancos

Músico e escritora usam sua arte (música e literatura) para fazer com que a população negra sinta que barreiras físicas, que visam impedir a sua presença, estão sendo derrubadas

Publicado em 16 de Junho de 2021 às 02:00

Públicado em 

16 jun 2021 às 02:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Emicida e Chimamanda Ngozi Adichie
O racismo, porém, é o elo que junta a arte de Emicida, que ocupa os espaços brancos no Brasil, com a arte da escrita de Chimamanda, que ocupa espaços brancos e masculinos na literatura mundial Crédito: Jef Delgado e Divulgação
“Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.” Com esses versos da música "Sujeito de Sorte", composta em 1973 por Belchior, começa o documentário "AmarElo" do músico Emicida, que estreou na Netflix no ano passado, em plena pandemia da Covid-19.
O documentário é fantástico. Nele, Emicida relata a história dos negros sequestrados da África para serem escravizados no Brasil, chegando até os dias de hoje, sem deixar de incluir ao final o vírus minúsculo que mudou a vida de todos nós no último ano.
A arte de Emicida é exuberante, estonteante e, mais do que isso, ela tem o poder da crítica. A arte aqui, ao contrário da indústria cultural de massa criticada por Theodor Adorno e Walter Benjamin, cumpre exatamente o papel da crítica e ocupa espaços importantes. O show "AmarElo", que dá nome ao documentário, acontece no palco do Teatro Municipal de São Paulo, lugar onde os negros não eram bem-vindos, não conseguiam ocupar e, como conta Emicida, é fruto de um processo de gentrificação do centro da cidade de São Paulo, que expulsou os negros dos seus espaços tradicionais da cidade.
A ideia de Emicida é justamente ocupar espaços através da arte negra, não só para colocá-la sob os holofotes da sociedade brasileira e mundial, como também para fazer com que a população negra sinta que barreiras físicas, que visam impedir a sua presença, estão sendo derrubadas. Nessa mesma linha, vêm as obras de Djamila Ribeiro no Brasil e Chimamanda Ngozi Adichie na Nigéria e nos Estados Unidos, dois países onde ela vive.
Nesta segunda-feira, dia 14 de junho, Chimamanda foi entrevistada no programa "Roda Viva", da TV Cultura, nada menos que por mulheres feministas de grande importância para o debate feminista no Brasil, estando entre elas Djamila Ribeiro, filósofa e escritora, Carla Akotirene, pesquisadora e escritora da Universidade da Bahia, e Marcella Franco, professora e colunista da "Folha de São Paulo".
Há ainda muito a ser refletido sobre tudo que Chimamanda nos disse nessa entrevista especial para as mulheres brasileiras, são tantas ideias e entendimentos, que possivelmente levaremos alguns meses para que a ficha caia e compreendamos todos os insights que essa mulher poderosa trouxe para as nossas vidas. “A forma clara com que ela trata temas complexos, sem ser simplista” (da fala de encerramento do programa "Roda Viva", pela jornalista Vera Magalhães), impressiona e comove, nos faz entender que o caminho para a igualdade de gênero é ainda muito longo aqui no Brasil, mas que não estamos sozinhas.
Os relatos do seu dia a dia na Nigéria faz lembrar alguns dos problemas que as mulheres brasileiras enfrentam por aqui também, apesar de Chimamanda deixar bem claro que o machismo se expressa de forma diferente nos diferentes países, de modo que as situações que ela enfrenta em seu país natal nem sempre podem ser vistas aqui no Brasil ou nos Estados Unidos, onde ela também reside parte do tempo.
O racismo, porém, é o elo que junta a arte de Emicida, que ocupa os espaços brancos no Brasil, com a arte da escrita de Chimamanda, que ocupa espaços brancos e masculinos na literatura mundial. A escrita crítica vem sendo uma forma fantástica de trazer para o debate a posição da mulher na literatura e na arte em geral.
Chimamanda falou, no Roda Viva, sob as expectativas que se colocam sobre ela, como a de que seus livros deveriam somente trazer personagens feministas e que as suas obras deveriam ser classificadas como do gênero literatura feminista. O problema, que ela relata, é justamente a imposição de que ela ocupe um espaço pré-determinado pela indústria literária, um espaço de mulher, feminista e negra.
Vimos aqui, nas entrelinhas das falas de Chimamanda sobre o seu papel de escritora, que há uma barreira física que o machismo estabelece mesmo dentro da indústria literária, lugar que também tem que ser ocupado pelas mulheres da forma que elas quiserem e não nos espaços pré-determinados pelos homens.
Mulheres negras, em sua maioria, desde Lélia Gonzales no Brasil a Angela Davis nos Estados Unidos, têm sido as precursoras dessa ocupação, que agora é levada adiante por outras mulheres fantásticas como Chimamanda, Djamila, Carla, Marcella, Rosely, Rose, Ethel, Janette, Luzia, Beth, Maria Beatriz, Viviana, Edleusa, Fernanda, Flávia, Gabriela, Gisele, Márcia, Mariana, Rosilda, Rosi e tantas outras no Brasil e no mundo.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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