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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

Emicida fala sobre o essencial documentário "AmarElo", da Netflix

"Emicida: AmarElo - É Tudo Pra Ontem" é uma aula de cultura brasileira. O rapper fala sobre a produção do filme e a importância das histórias contadas por ele

Vitória
Publicado em 08/12/2020 às 00h39
Atualizado em 08/12/2020 às 00h39
Documentário Emicida: Amarelo - Tudo é pra Ontem
Documentário Emicida: Amarelo - Tudo é pra Ontem. Crédito: Jef Delgado/Divulgação

Se você clicou no link para esta coluna, você tem no mínimo algum interesse no Emicida. Neste caso, já me adianto e digo: vai correndo assistir a "Emicida: AmarElo - É Tudo Pra Ontem", documentário lançado nesta terça (8) na Netflix. Sério, vai lá e depois retorna aqui pra ler a entrevista com o rapper.

Na última semana, eu e alguns colegas jornalistas de diferentes cantos do Brasil nos sentamos virtualmente com Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, para falar sobre o documentário. Simpático e prolixo, sempre com palavras de esperança e união na ponta da língua, Emicida é o entrevistado perfeito, o tipo de cara que fala mais do que você pergunta, que se aprofunda nos temas discutidos e que traz novos questionamentos.

Justamente empolgado com o lançamento, o rapper paulistano, assim como "AmarElo", o filme, vai da Semana de Arte Moderna de 1922 à ocupação de espaços antes relegados a uma elite branca - é o caso do Teatro Municipal de São Paulo, local em que Emicida gravou o show registrado com maestria para o filme.

Mas, como disse na crítica do documentário, "AmarElo" é muito mais do que o registro dos bastidores de um show, o filme é um resgate da história de personagens negros apagados pela história branca. "Se essas figuras tivessem tido a visibilidade que elas merecem, se elas participassem da história oficial deste país, a nossa concepção a respeito do país provavelmente seria completamente diferente. Nós não iríamos estranhar arquitetos pretos, intelectuais pretos, engenheiros pretos... Nós não teríamos esse estranhamento que a sociedade tem quando ela vê uma pessoa preta em ascensão", explica.

"AmarElo", como fica claro na primeira resposta, é sobre sonhos e esperança. "Se nos momentos em que a gente está numa situação estável é bonito que a gente tenha esperança, em um momento como esse em que a gente está, é obrigatório ter esperança", pondera o músico.

O projeto que engloba o disco lançado ano passado e o filme que chega agora à Netflix também fala muito sobre encontros, e isso fica claro quando vemos o filme - seja nos bastidores da gravação do disco, com Zeca Pagodinho e o saudoso Wilson das Neves, seja no palco do show, com Majur e Pablo Vittar.  "O superpoder do Brasil é o encontro", brinca.

Mais maduro e ciente da relevância que tem para a nova geração, Emicida reforça a mensagem de esperança do projeto e a estende a nós, os jornalistas que o entrevistavam naquele momento. "A gente tem uma responsabilidade muito grande e eu não me coloco no lugar diferente do de vocês. Todos nós somos artesãos da palavra. A partir do que a gente fala é que as pessoas vão acreditar ou desacreditar do país no qual elas vivem. É a partir do que a gente compartilha que elas vão ter esperanças ou deixar de ter esperança. Queria só agradecer a vocês porque 'AmarElo' é uma história muito bonita e o Brasil precisa de uma história bonita pra encher o coração de esperança e voltar a sonhar. A gente precisa voltar a sonhar senão não vai construir um Brasil melhor".

Confira abaixo a entrevista na íntegra com Emicida e, se ainda não o fez, confira "Emicida: AmarElo - É Tudo Pra Ontem", na Netflix.

Tanto o disco quanto o filme trazem uma mensagem de esperança. Nesse contexto que a gente está vivendo, com o filme chegando pouco mais de um ano depois do disco, ele renova essa mensagem de esperança?

Tem um poema do Mário Quintana que fala que todo ano tem uma velhinha que vai subir num prédio de 12 andares. Ela vai ficando cada vez mais louca no caminho. Chegando lá em cima, ela já bem velhinha, ela vê que a vida não faz sentido e aí ela pula. Quando ela pula, a cada andar que ela vai caindo, ela fica mais jovem. Quando chega lá embaixo e o povo vai acudi-la, ela é uma criancinha de novo. Aí o povo pergunta "qual seu nome, menininha", e ela responde: "meu nome é esperança" (o nome do poema é "Esperança" e ele se encontra no livro “Nova Antologia Poética”). Tá ligado? Acho que é isso que a gente faz cada vez que a gente vai contar uma história pro mundo. Se nos momentos em que a gente está numa situação estável é bonito que a gente tenha esperança, em um momento como este em que estamos, é obrigatório ter esperança, pois é dela que vai surgir uma sugestão de caminho que nos coloca num lugar melhor. Acho que a gente abriu uma linha de raciocínio que abre espaço pra que a gente sonhe, porque somos um país de pessoas que sonharam por um mundo melhor. No documentário, de alguma maneira, o que eu tento fazer é mostrar que muitas dessas pessoas não só sonharam, como também construíram resultados práticos através de seus sonhos. Acho que a provocação maior que fica no projeto "AmarElo" é que a gente precisa dar continuidade à grandiosidade dessa grande linhagem de sonhadores que conseguem por o sonho pra fora da cabeça e fazer um país melhor.

O filme não é apenas um registro do show, tem muito mais, muita história. Como foi essa construção dessa história tão rica, tão cheia de comparações tão interessantes? Queria saber também da questão da pandemia, porque você deve ter pensado muito se incluiria ou não.

A Semana de Arte Moderna de 1922 foi um movimento bem bacana, com suas contradições, porque todos os movimentos no Brasil têm as suas contradições. A mensagem principal da semana foi chacoalhar o país pra que ele tivesse ele mesmo como referência também, não só os grandes movimentos de arte da Europa. Quando a gente fala sobre o movimento hip hop ou sobre a música rap, é muito comum que as pessoas busquem suas referências somente no exterior, como sendo uma música de origem norte-americana, mas a verdade é que a cultura hip hop e o rap recebem esses nomes no hemisfério Norte, mas são frutos diretos de manifestações culturais da diáspora africana. Isso é uma justificativa sólida, por exemplo, pra que no Nordeste do Brasil haja uma música chamada "repente" que tem como base os exatos mesmos ingredientes, ritmo e poesia. Curiosamente, Deus é um cara tão bem-humorado que as três primeiras letras são quase as mesmas (risos). O repente nacionalizou o termo "rap". Eu acho que o rap do Brasil deveria ser escrito com "e", porque funciona tranquilamente e ninguém sai perdendo. Então, eu entendo o movimento de 22 como uma tentativa do Brasil contar sua história. Tem um paralelo traçado com o samba porque o samba é um grande movimento que não é só entretenimento. Ele também é um resultado de várias dessas manifestações. Inclusive, em 22, quando o modernismo brasileiro tava nascendo, o samba já produzia resultados práticos, e o que eu chamo de resultados práticos? O modernismo tava começando a provocar a arte brasileira pra que o epicentro da criação fosse o Brasil. O samba, em 22, estava sendo reverenciado pela vanguarda cultural do mundo, que era Paris, a inspiração da burguesia paulistana. Então, a gente precisa entender a movimentação do samba como uma coisa que antecede tudo isso, já moderna, já urbana, já poética e já artística, como um movimento político que se torna o pensador do Brasil. É desse lugar que surgem um Candeia e uma Lélia Gonzalez. Já a pandemia entra porque a produção do filme, como um todo, foi impactada. Talvez, se não estivéssemos atravessando essa pandemia, o filme fosse um produto diferente. A gente teria saído mais pra rua, pra captar mais imagens, pois tudo que a gente usou de imagem minha ou outras coisas são imagens que a gente já tinha captado. Eu captei pouquíssima coisa aqui em casa com uma mini-DV velha, mas o resto já tava captado. A gente teve que converter essa limitação em liberdade. O que a gente fez? Como não ia poder captar, a gente usou subterfúgios que enriquecem o filme: animação e acervo de outros materiais. Então usamos o acervo da TV Cultura, do Ipeafro, quando falamos do Abdias do Nascimento... Então dá um peso histórico pro filme porque não só a gente tá contando uma história como a gente tá embasando ela com fatos que antecederam a chegada do Emicida. E como o projeto inteiro fala de coletividade, nada mais bonito do que fazer isso. No final a gente ainda teve que cortar um pedação da pandemia porque estava muita pandemia.

Documentário Emicida: Amarelo - Tudo é pra Ontem
Documentário Emicida: Amarelo - Tudo é pra Ontem. Crédito: Jef Delgado/Divulgação

O filme é incrível. Achei muito bonito como você mostra a história que é da cultura negra, mas é também da cultura brasileira, mostrando como pessoas abriram as portas pra chegar a um Emicida. Queria saber se você tem noção das portas que você tá abrindo pra galera que vem a seguir, pra galera que cresce admirando artistas como você, que fazem da arte uma revolução.

Mano, eu tenho ideia, mas não penso muito. Eu gosto é de ver as consequências depois. Acho que vão surgir movimentos muito bonitos e estou curioso pra ver o que vão produzir as pessoas que são inspiradas por isso. No nosso tempo a gente tem uma coisa que é um pouco triste. Eu fico muito preocupado com essa geração porque o critério de seleção da indústria tem se convertido em "views" e "likes", e isso não tem nada a ver com arte, não tem nada a ver com inteligência. Se pegássemos uma máquina do tempo e nos encontrássemos em 1950, desconhecendo 2020, quem de nós iria supor que, em 2020, Bethoven ia concorrer com vídeo de gatinho no YouTube e perder, sabe? (risos) Esse é o lugar pelo qual a gente olha o mundo, então a gente tem que tomar muito cuidado com essa cultura dos "likes". Me preocupa essa atmosfera porque na tentativa de construir relevância e ser percebido, as pessoas podem ser sequestradas por essa lógica e empobrecer nossa arte. O que acho mais especial em colocar um projeto como "AmarElo" na rua, do disco ao documentário e tudo o que permeia essa construção, é porque não só a gente está sugerindo que a gente precisa se conectar com a grandiosidade de tudo o que antecedeu a gente, como a gente também está conseguindo fazer com que a indústria reconheça a importância de contar uma história novamente. E você colocou um ponto muito valioso sobre o qual eu queria falar um pouco. É um lugar comum, mas que não é uma coisa problemática, é uma conclusão até meio óbvia que se tem. Quando as pessoas assistem (ao filme) elas falam que o filme "faz um paralelo do último século de história negra", mas, na verdade, é o que você falou: o filme fala sobre cultura brasileira e é muito importante que a gente termine com a sensação de "por que essas figuras foram invisibilizadas?". Se essas figuras tivessem tido a visibilidade que elas merecem, se elas participassem da história oficial deste país, a nossa concepção a respeito do país provavelmente seria completamente diferente. Nós não iríamos estranhar arquitetos pretos, intelectuais pretos, engenheiros pretos... Nós não teríamos esse estranhamento que a sociedade tem quando ela vê uma pessoa preta em ascensão. Infelizmente isso não foi produzido, mas como o ditado que abre e fecha o filme diz: "é sempre tempo de a gente corrigir isso". E acho que o melhor momento pra falar disso, por mais frustrante e agoniante que o contexto possa ser, é agora, que é a nossa chance de mudança.

Emicida

Cantor

"Se essas figuras tivessem tido a visibilidade que elas merecem, se elas participassem da história oficial deste país, a nossa concepção a respeito do país provavelmente seria completamente diferente. Nós não iríamos estranhar arquitetos pretos, intelectuais pretos, engenheiros pretos... Nós não teríamos esse estranhamento que a sociedade tem quando ela vê uma pessoa preta em ascensão"

O lugar que a gente ocupa tem muito a ver com a forma como a gente interpreta determinadas coisas. E você fala sobre marcar seu tempo e estar em um lugar físico, no caso o Municipal. Dá pra construir um lugar físico que marque nosso tempo nas periferias ou você acha que devemos obrigatoriamente ir pros centros, saindo do nosso espaço e reconquistar outros?

Dá, é fundamental e isso já acontece. A gente precisa ter uma relação de afeto com o lugar de que a gente vem. A história da Zona Norte de São Paulo é muito bonita. É uma região de chácara, de fazenda, de sítio que alimentava a cidade. O escurecimento dessa parte da cidade tem uma história muito interessante. O desenvolvimento de São Paulo promove uma série de deslocamentos. Ele empurra populações pretas pra fora da cidade. Uma vez eu tava conversando com Seu Carlão do Peruche e sabe o que ele falou pra mim? Que quando ele se mudou pra Casa Verde, a Casa Verde era um quilombo. Olha que foda.... Eu não acho que algum lugar possa não pertencer a alguém em uma cidade. Esse é o grande equívoco. Às vezes as pessoas acreditam que, do meu ponto de vista, um lugar como o Teatro Municipal não tem o direito de existir porque ele é um lugar que representa a exclusão, mas não, é o extremo oposto! Ele é tão grandioso, tão bonito, tão digno de reverência que todas as pessoas têm que ter ideia disso, e, pra ter ideia disso, elas têm que se relacionar com o teatro. Uma história grande é construída de várias outras histórias. Quantas escolas de samba a gente tem na Zona Norte de São Paulo? Quantas vezes a Zona Norte foi cantada pelos grandes como Adoniran Barbosa? A gente não precisa necessariamente se deslocar e abandonar o lugar de origem, muito pelo contrário. A gente tem que se apaixonar pelo lugar de onde vem, porque ele também tem uma história. É uma parte um pouco menor da História deste país, mas a gente não pode se fechar numa bola e acreditar que só um desses lados nos interessa. Durante o processo de elaboração de "AmarElo" a gente ficava se fazendo uma pergunta pra todo mundo responder com a primeira coisa que viesse à mente: qual a coisa mais importante de todas? E ninguém sabia responder. Realmente é muito difícil. Chegamos à conclusão de que a coisa mais importante de todas são as relações, os encontros. A vida só faz sentido quando a gente se encontra. É por isso que colocamos toda essa história de pé falando de encontros. Desde os artistas se encontrando, o povo se encontrando com o Teatro Municipal, essa história encontrando os espectadores e os espectadores encontrando essa história, tudo é sobre encontros. O superpoder do Brasil é o encontro (risos). A gente perde quando não consegue fazer o encontro ser reverenciado como deveria. Fala-se muito sobre o Brasil ser um país miscigenado e isso é um fato. Por mais que na origem desse fenômeno a gente não tenha uma história da qual a gente possa se orgulhar, a consequência dele é um fato - cá estamos nós numas famílias todas misturadas. O que a gente precisa produzir? Uma sociedade que, de uma maneira justa, distribua oportunidades iguais aos miscigenados, com a miscigenação clareando ou escurecendo, na mesma proporção, e é isso que a nossa sociedade não consegue produzir. Por isso é que a gente tem que se voltar pra essas estruturas e dizer que enquanto as pessoas pretas não puderem circular livremente, isso é só uma meia verdade. Então o encontro precisa ocupar seu lugar de reverência e a gente precisa produzir uma sociedade que seja digna dessa grandeza.

Fiquei pensando como o filme é um documento importante da cultura brasileira, mas também da cultura hip hop brasileira. Aí comecei a pensar um pouco sobre a memória visual do hip hop brasileiro. Tentando ser o menos vira-lata possível, os caras lá fora têm filme do NWA, Tupasce Notorious BIG em vários documentários, tem o "Hip Hop Evolution", na própria Netflix... Queria essa visão sobre essa memória audiovisual do hip hop brasileiro.

As possibilidades de produção e lançamento hoje são muito mais democráticas que há 30, 40 anos atrás, quando o hip hop começou a engatinhar no Brasil. Essa democracia que propicia que uma pessoa como o Emicida desenvolva sua carreira, sua empresa, e alcance um player global como a Netflix e entre num acordo pra lançar um filme, é uma coisa nova. Em geral, produzir e captar era muito mais caro. Pra fazer um clipe era um dinheiro absurdo de inalcançável. É por isso que a gente tem (historicamente) tão pouco vídeo clipe. Essa coisa agora de todo mundo lançar clipe se deve ao digital. As câmeras, as plataformas e os computadores se popularizaram, mas a gente tem uma lacuna muito grande. Eu acho que de alguma forma ela vem sendo preenchida pela maneira como as pessoas conseguem produzir. A gente fez isso algumas vezes, mas eu acho que de tudo o que a gente já produziu de audiovisual, esse é nosso primeiro documentário. É a primeira vez que a gente conseguiu organizar as histórias dentro de um roteiro, que conseguiu realizar uma super pesquisa, embasar toda produção, passar pelo making of, fazer um show lançamento e contar uma história que é muito mais ampla que a nossa. Existe uma conclusão à qual as pessoas chegam que a gente, como artista, tem que tomar muito cuidado. A maior parte das pessoas que vêm ao nosso encontro diz "você é muito foda, sem você as coisas não aconteceriam" e eu fico muito lisonjeado com tanto afeto, mas a verdade é que eu sou consequência da movimentação de muita gente. De escritor, intelectual, pintor, instrumentista, jornalista... Quando eu era criança eu recortava matérias sobre as soundsystem da Jamaica, que saia em uma ou outra revista. Sabe o que aquilo me dizia? Eu não tinha como montar um estúdio com uns equipamentos todos iguais, e eles faziam aquela gambiarra que era uma caixa de som de cada tipo, tudo ligado num toca disco e tudo ligado com dois fios de cobre desencapado. Podia pegar fogo em tudo ali a qualquer momento, tá ligado? (risos) Mas quando os jornalistas do Brasil faziam matérias e me contavam a história sobre aquilo, eu me sentia de alguma maneira conectado às raízes do som na Jamaica. Não tem como eu me colocar nesse lugar hoje e não contar a história que passe por tantos personagens, e a gente podia contar a história de mais personagens, mas não queria fazer um filme gigantesco porque ele podia ficar cansativo. Então esse primeiro passo no audiovisual, esse documentário robusto mesmo, é uma forma de dizer que toda conquista é coletiva, tá ligado? É uma forma de a gente sempre avançar junto. Torço muito pra que outros irmãos, outras irmãs consigam produzir, que lancem pela própria Netflix ou outra plataforma de streaming... Acho que a gente tem uma lacuna grande a ser preenchida, mas as oportunidades são maiores hoje do que eram há 40 anos. E eu me disponho a auxiliar as pessoas a fazerem essas coisas acontecerem.

Emicida

Cantor

"Às vezes as pessoas acreditam que, do meu ponto de vista, um lugar como o Teatro Municipal não tem o direito de existir porque ele é um lugar que representa a exclusão, mas não, é o extremo oposto! Ele é tão grandioso, tão bonito, tão digno de reverência que todas as pessoas têm que ter ideia disso"
Imagem do documentátio
Majur e Emicida em "AmarElo", da Netflix. Crédito: Jef Delgado/Netflix

Houve alguma história específica ou algum ponto que você quis colocar no documentário, mas precisou tirar da construção narrativa?

Tem duas histórias, na verdade, que não são necessariamente por causa do tema, mas sim pelos direitos autorais. Tivemos teve que entrar em contato com uma série de instituições ao redor do mundo. É interessante pensar isso na produção de acervo, a nossa capacidade de produzir memória, pra ela estar pronta para o futuro, pra que as pessoas possam contar essas histórias no futuro com instituições que se preocupam com o que essas imagens significam. Infelizmente muitas imagens muito importantes das décadas de 1920, 30 e 40 não são de propriedade de brasileiros. Muitas imagens de artistas fundamentais para se contar a história do Brasil não são de propriedade de artistas brasileiros. E o que isso significa? Isso significa entrar em contato com uma empresa europeia que define como, quando e quanto vai custar a forma de se usar isso. Isso é uma problemática muito grande pra nós. Houve fragmentos e tivemos que alterar algumas coisas por causa dessa questão autoral. Talvez pudéssemos inserir com um pouco mais de tempo, mas não é uma negociação fácil, não é um grupo de pessoas sensíveis ao que o filme significa, então é uma grande barreira. Isso me deixa bastante lisonjeado e seguro de no sentido de que o que a gente tem construído com a Laboratório Fantasma é o oposto disso. Daqui a 50 anos, quando uma menina ou um menino for fazer um documentário e carecer de imagens a respeito do contexto no qual a gente existiu, a gente vai estar aí, mais atento pra participar desse tipo de projeto. Uma exceção que me deixou muito feliz foi o Ipeafro, fundado pelo Abdias do Nascimento. Enquanto instituição, o Ipeafro tem um acervo super organizado e eles são super sensíveis ao significado ao nome do Abdias. Só finalizando, uma história que poderia ter entrado e acabou não entrando... Na semana passada (a entrevista ocorreu dia 2 de dezembro) a gente perdeu um amigo chamado Bruno. Bruno foi o cara que ajudou a gente desde o começo, foi o cara que comprou a primeira copiadora de CDs da Laboratório Fantasma; quando a gente foi chamado pra tocar nos EUA, ele era o único que tinha passaporte, nós não pensávamos que íamos sair nem de Santana. Ele foi o cara que ajudou a gente nessa época e acabou sendo o nosso tradutor, literalmente nossa palavra. Dois meses atrás, mais ou menos, a gente tava finalizando o projeto e precisava de uma imagem forte pra fechar. Aí eu me lembrei que a gente tinha uma imagem captada, de um dia que a gente saiu pra vender CDs na frente do Teatro Municipal, na região do Centro. Quem captou essa imagem foi o Bruno. Ele sempre participou de todos os projetos que a gente lançou ou esteve em volta dele. "AmarElo" foi o único de que ele tava distante, por conta de trabalho, fazendo outras coisas. Há dois meses eu liguei pra ele e ele falou "vou mandar o HD aí pra vocês". Ele mandou todos os HDs que estavam com ele. A imagem tem a gente subindo a escadaria, bem mais novos, sem barba, sem cabelo... Naquela época a gente achava que tinha que andar igual peixe, sem cabelo e sem barba (risos). A última imagem tem aquela virada da câmera que pega o Municipal do fundo. O Bruno veio a falecer semana passada como uma sequela da Covid-19 que ele teve em outubro. Eu gostaria só de ter colocado, no filme, mais informações a respeito dele, porque ele foi fundamental na nossa história. Eu comecei a semana passa chorando pela perda e terminei a semana passada chorando de gratidão. A gente foi muito sortudo de ter encontrado alguém tão especial na nossa trajetória quanto ele.  

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