Faltava pouco para 2019 acabar quando ouvi pela primeira vez aquele disco sobre elos, laços e conexões.
Achei que “AmarElo” era uma defesa do afeto como revolução, de amar como um belo modo de resistência. Escrevi aqui mesmo a respeito de sua sequência de rimas preciosas sobre a solidariedade e a força da delicadeza. Falei da empatia, da camaradagem, da inclusão, da magia da diferença, do poder da diversidade e de Leminski, o poeta faixa preta que dizia, poeticamente: o amor é um elo entre o azul e o amarelo.
Oito meses, uma pandemia e 820 mil mortos depois, vejo na TV que “AmarElo” inspirou uma moça preta de 40 anos a retomar os estudos. Cristiane Oliveira ganhou R$ 30 mil em um programa de variedades. Ao receber o prêmio, revelou que seguia firme para estar no pódio, exatamente como Emicida havia cantado naquele disco sobre elos, laços e conexões, com a fúria da beleza do sol. “Voltei para a faculdade por causa da música”, ela conta, emendando que fez um combinado com o músico, sem que ele soubesse:
- Quando ele olhar para o pódio, eu vou estar lá, formada.
Aprendi faz alguns anos com um célebre professor de Português que as palavras respirar, transpirar, inspirar e conspirar têm como base o mesmo elemento de composição latino spiro. Assim como suspirar, expirar e espiritualizar, nascem todas da mesma raiz, o verbo spirare, que significa soprar, exalar um sopro. Segundo ele, do sentido inicial de spirare derivam os sentidos figurados de estar vivo, estar inspirado e respirar.
Para o célebre professor de Português, inspirar, respirar e estar vivo também estão, de algum modo, conectadas pela raiz à palavra espírito. E espírito, de acordo com o dicionário, vem do latim spiritus, que significa sopro, exalação, sopro vital, espírito, alma.
Certas palavras são sábias como aquele disco sobre elos, laços e conexões. São poéticas como o poeta faixa preta que dizia sobre o amor ser um elo entre o azul e o amarelo. São inspiradoras como a moça que segue firme rumo ao pódio, com a fúria da beleza do sol.