Certas obras de arte são capazes de aquecer os dias em que faz frio dentro de nós. AmarElo, o novo disco de Emicida, é assim: uma sequência de rimas preciosas sobre a solidariedade, a delicadeza em meio a um mar de durezas e a força do amor.
O álbum promove um encontro de diferenças, exalta a empatia, aplaude a camaradagem, aposta na inclusão e celebra o poder da diversidade.
O recado estava dado desde o lançamento do videoclipe que dá nome ao disco, quatro meses antes. No vídeo, Emicida divide as trincheiras, os vocais e a cena com as cantoras Pabllo Vittar e Majur. Nas vielas do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, eles jogam luzes sobre a depressão na periferia e transformam em rap uma das mais melancólicas canções de Belchior, “Sujeito de Sorte”, de 1976.
Não é pouca coisa. Um artista negro, nascido nas quebradas da cidade de São Paulo, uma drag queen saída de São Luís do Maranhão e um gay negro, nordestino e transgênero recitando um cearense maldito numa das áreas mais violentas do Rio de Janeiro deixam claro que AmarElo não está para brincadeiras - o sampler do refrão "tenho sangrado demais |tenho chorado pra cachorro | ano passado eu morri | mas esse ano eu não morro...", aliás, é um forte candidato a melhor trecho musical de 2019.
Seu discurso é o do afeto, mas carrega também o peso das estatísticas de um Brasil desigual e cruel. Um Brasil onde, a cada 23 minutos, um jovem negro é morto, somando 63 por dia, 23 mil por ano. Um Brasil que registra uma morte por homofobia a cada 16 horas, 552 pessoas LGBTQI+ assassinadas por ano em razão de sua orientação sexual. Um Brasil que pouco fala sobre depressão e suicídio nas áreas mais pobres e entre gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, queers, intersexuais, assexuais e pansexuais.
Gente é para ser gentil, Emicida canta, acompanhado das pastoras da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e da cantora Fabiana Cozza, na música Principia, que abre o disco.
Elos, laços, conexões: é sobre eles que AmarElo trata. O nome vem do antológico poema de Paulo Leminski ("amar é um elo | entre o azul e o amarelo"). Amar, o músico defende, é a forma mais revolucionária e instantânea de conectar as pessoas. Sentir e falar de afetos, podemos concluir, não deixa de ser um belo modo de resistência.