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Um país de luto

O significado de 100 mil mortes na pandemia no Brasil

Há quem defenda que números imponentes nos anestesiam. Abstratos e distantes, se tornam compreensíveis apenas quando se traduzem numa perda próxima. Ainda assim, não é fácil digerir o significado de 100 mil mortes

Públicado em 

16 ago 2020 às 05:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus (AM)
Cemitério em Manaus: não é fácil digerir as mortes e entender o tamanho da tragédia escondida na frieza das estatísticas Crédito: Alex Pazuello/Prefeitura de Manaus
É difícil compreender a dimensão das 100 mil mortes causadas pelo coronavírus no Brasil. Se fizéssemos um minuto de silêncio por cada vítima, seriam 70 dias sem dizer uma única palavra, dois meses e dez dias de recolhimento completo, quietos como os monges trapistas do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo e a tribo dos dogons no final da vida.
Se contássemos por grandes bairros de Vitória, Jardim Camburi, Jardim da Penha e a Grande São Pedro simplesmente desapareceriam do mapa, como Bacurau, retirado da Geografia com tudo dentro, esquecido no meio do nada com seus afetos e desavenças, saudades e rancores, sonhos e desejos, memórias e projetos para amanhã.
Se a medida fosse o número de assassinatos no Brasil, seria preciso somar as mortes de 2018 e 2019 inteiros para chegar ao total de vidas que a pandemia levou. A Gripe Espanhola, outra tragédia de dimensões globais, deixou três vezes menos mortos no Brasil, num período de tempo bem maior (dois anos de Gripe Espanhola, cinco meses de Covid-19).
O que dizer, então, dos mais ou menos 1 milhão de filhos, pais, mães, irmãos, maridos, esposas e amigos de luto, sem contar os que perderam gente próxima por outras causas e, por conta da pandemia, não puderam realizar as despedidas que consideravam adequadas? Uma São Luís do Maranhão ou uma Campinas inteirinhas chorando a partida dos seus queridos enquanto o resto do mundo se divide entre aglomerados e isolados, valentões e amedrontados, flutuantes e convictos, céticos e zelosos, cloroquina e Tubaína.
Há quem defenda que números imponentes nos anestesiam. Abstratos e distantes, se tornam compreensíveis apenas quando se traduzem numa perda próxima. Mudamos a forma como nos relacionamos com o espaço público, com colegas de trabalho, com a família, os amigos, quase tudo. Vimos uma face ainda mais cruel da desigualdade social, dos privilégios estabelecidos principalmente pela cor da pele que habitamos e pelo endereço em que vivemos. Aprendemos a chorar, de longe, as partidas e as ausências.
Ainda assim, não é fácil digerir o significado de 100 mil mortes, entender o tamanho da tragédia escondida na frieza das estatísticas, enxergar o rosto de Cícero, Pedro, Edileusa, Dona Hercília e Seu Arthur, Regina, Ana Maria ou o pai de um velho camarada.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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