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Contemporaneidade

A desumanização das relações começa pelas portarias remotas

Uma realidade nos toca de perto aqui no Estado: a demissão em massa de porteiros de edifícios e condomínios, que estão sendo sorrateiramente substituídos pelas chamadas portarias remotas

Publicado em 17 de Fevereiro de 2021 às 02:00

Públicado em 

17 fev 2021 às 02:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi Brunela Vincenzi
Condomínio com portaria remota
Maioria dos edifícios e condomínios que optam por essa solução automatizada de portarias remotas está localizada em locais nobres Crédito: Shutterstock
Há muito estudiosos vêm se dedicando ao tema da desumanização das relações sociais no mundo contemporâneo, em especial por que muitas empresas e entidades jurídicas acabam se aproveitando de situações de crise para tentar se livrar de seus funcionários e substituí-los por máquinas ou sistemas de automação. A Constituição Brasileira de 1988 já previa que isso se tornaria um problema, quando no inciso XXVII de seu artigo 7 estabeleceu ser direito dos trabalhadores a: “proteção em face da automação.”
Estudos como o dos professores franceses Eve Chiapello e Luc Boltanski, publicados no livro “O Novo Espírito do Capitalismo”, lançado no Brasil pela Editora Martins Fontes, demonstram que as empresas privadas, na contemporaneidade, aproveitam-se de crises como a financeira de 2008 ou, agora, a epidemiológica causada pelo novo coronavírus, para se livrar de problemas estruturais já existentes em seus negócios. Em outras palavras, empresários que há tempos queriam substituir funcionários por robôs, aproveitaram-se da crise financeira como argumento para demissões em massa.
Mais ainda, nos dias atuais, com a Covid-19, empregadores privados aproveitam-se da pandemia para impor o trabalho remoto como realidade para muitas famílias, de modo a economizar despesas que teriam com os ambientes de trabalho, tais como contas de energia elétrica, de internet, transporte e alimentação devidos aos trabalhadores, transferindo-as aos próprios empregados que têm que transformar os seus lares em escritórios da noite para o dia.
Mas outra realidade nos toca mais de perto aqui no Estado, que é a demissão em massa de porteiros de edifícios e condomínios, que estão sendo sorrateiramente substituídos pelas chamadas portarias remotas.
Notem, caros leitores e leitoras, que a Constituição Federal de 1988 prevê expressamente a necessidade de medidas de proteção aos trabalhadores, para que não sejam eles simplesmente descartados diante de qualquer possibilidade de automação – mesmo que desnecessária ou menos eficaz – de seus postos de trabalho.
A condição humana daquele que nos recebe no dia em nossos lares, cuidam de nossas crianças e familiares, jogam um olhar sobre nossos pertences privados, zelam pelo nosso dia a dia em segurança e em paz, vem sendo invisibilizada pela substituição do seu olhar pelo de uma câmera de vídeo, e suas mentes e vozes por um sistema de comunicação remoto.
Um análise empírica breve, que pode ser feita pelos nossos leitores também, demonstra que a maioria dos edifícios e condomínios que optam por essa solução automatizada de portarias remotas está localizada em locais nobres das cidades da Grande Vitória, como por exemplo a região da Praia da Costa, em Vila Velha, e da Praia do Canto e da Ilha do Boi, em Vitória
Há edifícios de luxo com portarias remotas em condomínios onde evidentemente não há problemas financeiros (decorrentes da inadimplência de condôminos, por exemplo) que impunham a demissão de todos os funcionários do condomínio para substituí-los pela automatização.
Indagamo-nos, diante disso, o verdadeiro motivo por trás dessa tomada de decisão por parte dos condôminos e dos gestores de empresas administradoras condominiais: estariam estes beneficiando-se diretamente com a contratação? Tamanho o absurdo de substituir por sistemas tecnológicos seres humanos carentes e com famílias para sustentar em meio a uma pandemia, que nos passa realmente pela cabeça uma coisa dessas. Mas não sendo esse o caso, trata-se somente de maldade ou falta de bondade por parte dos gestores e dos condôminos?
Nesses dias de pandemia mundial, de adoecimento pela Covid-19, com tantas mortes ques rodeiam a todos, conclamo a vocês,  leitores e leitoras, a refletirem sobre as pequenas decisões no seu dia a dia que estejam afetando a vida de famílias e de seres humanos, que hoje, mais do que nunca, precisam de seus empregos para o sustento de seus familiares. Se a automação em seu condomínio não é absolutamente necessária, não permita que isso aconteça. Lute conosco por vidas humanas e pela sua preservação no planeta!
Os artigos assinados não traduzem necessariamente a opinião de A Gazeta.

Brunela Vincenzi

Brunela Vincenzi Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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